quarta-feira, agosto 17, 2011

Música com Cinema (5): Björk e Lady Gaga


All Is Full of Love, de Björk
Realização: Chris Cunningham
1999

A ideia do homem-máquina e da humanização do ser artificial é assunto há muito caro à ficção científica. A música teve, a dada altura, interessante foco de reflexão sobre estes assuntos através do discurso que acompanhou algumas das edições em disco dos Kraftwerk (sobretudo quando, por alturas do lançamento do álbum ‘The Man Machine’, de 1978, modelos robotizados dos músicos tomaram o lugar dos quatro elementos do grupo em acções promocionais).

Outro importante episódio nesta mesma história chegou através de uma colaboração do realizador Chris Cunningham com Björk. Com obra essencialmente definida entre os universos da publicidade, da video art e do vídeo musical (assinou já telediscos para nomes como Aphex Twin, The Auterus, Madonna, Portishead ou Placebo), Chris Cunningham deu corpo, em 1999, ‘All Is Full Of Love’, uma das mais belas canções da cantora islandesa. O teledisco mostra uma sequência de tocante humanidade através de carícias e beijos entre dois robots que reflectem traços fisionómicos da própria Björk.

‘All Is Full of Love’ não só é hoje reconhecido como um dos telediscos mais bem sucedidos das carreiras da cantor e do realizador, como foi na altura um dos mais premiados do seu tempo, arrebatando dois prémios MTV e sendo mesmo nomeado para um Grammy. Hoje o teledisco integra a colecção permanente do MoMA, em Nova Iorque.

O disco

‘All Is Full Of Love’ foi, em 1999, o quinto single extraído do alinhamento do álbum ‘Homogenic’, de Björk. Antecedendo de certa forma ideias que utilizaria sob uma dimensão maior em instantes de ‘Selmasongs’ (álbum que juntou no ano 2000 as canções que Björk criou e interpretou no filme de Lars Von TrierDancer In The Dark’), ‘All Is Full Of Love’ explora a relação de sons ambientais (nomeadamente de máquinas) com instrumentação depois pensada para dar forma a uma ideia de canção. Discretas, as electrónicas servem de cenário a uma voz que aqui é a clara protagonista da canção.
Nuno Galopim



Yoü and I, de Lady Gaga
Realização: Haus of Gaga
2011

Após uma desilusão generalizada com o lançamento do teledisco “The Edge of Glory” (que, na minha perspectiva, confirma que basta uma actuação da cantora pop Lady Gaga para representar todo um vídeo), “Yoü and I”, um dos singles do álbum Born this Way, apresentou-se há poucas horas via Internet.

Basicamente, ouvimos uma canção rock (com o guitarrista Brian May, dos Queen, cuja canção “Radio Gaga” inspirou o nome artístico da cantora), cuja letra de amor é sobre a tentativa de recuperação de uma relação amorosa que a cantora manteve de 2007 a 2008 com o músico Lüc (daí o trema de “yoü”) Carl. Por aqui podemos já depreender a pessoalidade da própria música.

Este teledisco, rodado em Springfield, no Nebrasca (de onde provém o ex-namorado), segue Lady Gaga na sua chegada solitária ao estado e o reencontro com o amado. Com elementos que revelam a típica excentricidade da sua persona, em “Yoü and I” somos confrontados, na abertura do teledisco, com a exploração do corpo através da sua mutilação mecânica (ideia que não é nova, como podemos comprovar no teledisco de Björk em cima divulgado), o que, de certa forma, encontra paralelo com a transformação que lhe provoca o homem, em diversos episódios. O último deles parece ser a transfiguração para a figura mitológica da sereia, acabando enfim por se unir àquele que mais deseja.

Surrealista e onírico, “Yoü and I” contém elementos que convergem na confusão vivida por aquele casal, mas que por vezes acabam por não ter o efeito pretendido (repare-se, a título de exemplo, o dispensável movimento “tilt” no minuto 3:12).

Por fim, este teledisco não deixa de introduzir cenas tipicamente românticas – como o casamento dissolvido num plano de uma casa (remetendo o espectador para a noção de família) e o beijo que Lady Gaga dá a si mesma, quer dizer, ao seu alter-ego masculino chamado Jo Calderone (e que nos conduz à ideia de respeito e amor próprio).

Apesar de não ser um teledisco brilhante e falho em diversos aspectos, este é um dos seus vídeos cinematograficamente mais fortes, preenchido com um júbilo e paixão invulgares comparando com os seus trabalhos precedentes.
Flávio Gonçalves

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