domingo, julho 31, 2011

Um olhar ao serviço da imaginação

No momento em que é reeditado o álbum ‘The Suburbs’ dos Arcade Fire com uma curta do realizador como extra em DVD, um olhar pelo autor de alguns dos mais célebres telediscos. Este artigo foi publicado originalmente no dia 30 de Julho de 2011, no Diário de Notícias.
Poucos serão os músicos que não gostariam de ter um teledisco realizado por Spike Jonze. E os poucos felizardos que conseguem, podem ter até direito a bonecos de plástico a lutar uns contra os outros e com efeitos especiais dignos de um filme de acção, tal como o realizador americano fez na curta-metragem Don’t Play No Game That I Can’t Win, que serve de mais recente teledisco para os Beastie Boys. É esta a matéria de que Spike Jonze é feito.

Scenes from the Suburbs, que agora é lançado em DVD, é uma média-metragem que alia as suas imagena à música dos Arcade Fire. Nela, entramos no universo íntimo de Spike Jonze, do qual as bicicletas e os skates fizeram parte da sua realidade. Já a ficção científica nasce da sua imaginação. Uma vez mais o autor “experimentador” procura assim a união, sem dúvida secreta e pessoal, entre as imagens, a música e ele mesmo.

Antes de se tornar num dos mais reconhecidos realizadores de telediscos, anúncios televisivos e de filmes dos Estados Unidos, o criador da série controversa Jackass nem se chamava Spike Jonze nem poderia imaginar o que o futuro lhe reservava. Nascido em Rockville (Maryland), a 22 de Outubro de 1969, deram-lhe o nome Adam Spiegel. Filho de um grande empresário e de uma escritora, cresceu em Bethesda e adoptou o nome de Spike Jonze não propriamente por ser a sua escolha, mas porque o dono da loja de conveniência que frequentava assim o tratava. Levou a sua adolescência a praticar o chamado BMX Freestyle, executando com talento diferentes manobras com a sua bicicleta. O seu entusiasmo levou-o a criar um clube BMX, com os amigos de liceu Andy Jenkins e Mark Lewman e a trabalhar em Los Angeles a praticar o seu talento como fotógrafo em publicações criadas pelos três.

Foi em 1992 que Spike Jonze se lançou no universo dos telediscos, ao realizar “100%”, dos Sonic Youth, onde mostrou o seu apreço pelos skateboarders. Em 1994, esteve à frente de Sabotage, um dos três telediscos que nesse ano realizou para a banda nova-iorquina de hip hop Beastie Boys. O vídeo, que concretiza uma espécie de paródia aos programas de televisão americanos dos anos 70, ganhou maior reconhecimento ao ser nomeado para 5 prémios nos MTV Video Music Awards (incluindo para melhor teledisco e melhor realização).

A carreira de Jonze nos telediscos ganhou então maior fôlego. Esteticamente relevantes, originais e ousados, entre os mais célebres trabalhos podemos contar Undone – The Sweater Song (1994) dos Weezer, It’s Oh So Quiet (1995), de Björk, Crush with Eyeliner (1995), dos R.E.M. e Da Funk (1997), dos Daft Punk. Foi nesta altura, em 1997, que Spike Jonze criou a sua primeira curta-metragem de ficção de 3 minutos, How They Get There, que escreveu e realizou.

Em 1999 lançou Torrance Rises, média-metragem de ficção, falso documentário no qual realiza, coreografa e interpreta, ao lado de Will Smith, Madonna, Eminem, Chris Rock e Sofia Coppola, realizadora de Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho, com quem casa no mesmo ano (separando-se em 2003). Ainda em 1999, Spike Jonze lança a sua primeira longa-metragem: a comédia negra Queres ser John Malkovitch?, escrita por Charlie Kaufman (os dois voltariam a cooperar em Inadaptado, o seu segundo filme, em 2002). O primeiro filme teve 3 nomeações para os Óscares da Academia, sendo que o segundo levou para casa o de melhor actor secundário, Clive Owen.

Spike Jonze, que também utiliza o pseudónimo Richard Koufey, criou a controversa série de televisão Jackass e continuou a trabalhar em telediscos (como para Kanye West, Yeah Yeah Yeahs ou LCD Soundsystem), lançando nos últimos dois anos mais duas curtas-metragens e uma longa, o êxito de bilheteira O Sítio das Coisas Selvagens, uma história com contornos de fantasia e imaginação em tudo fiel à sua visão como autor.

Um filme ao som dos Arcade Fire

Spike Jonze junta-se aos Arcade Fire para imaginar “cenas passadas nos subúrbios” num futuro não muito longínquo. Este drama enigmático e sedutor, com duração aproximada de meia hora, é uma recordação do protagonista e da relação que mantinha (e deixou de ter, por razões que nunca são bem explicadas) com o melhor amigo. Contextualizada numa época imaginada de vigilância militar atroz e opressora (sem motivo lógico aparente), a curta-metragem segue um grupo de adolescentes que, apesar de não ser alheio à situação externa do local onde vive (já que se encontram aprisionados na própria cidade), decide levar a sua vida com uma alegre leviandade. E é esse que Spike Jonze se propõe – e consegue – concretizar: filmar, através da música da banda de rock, a leveza da vida para aqueles jovens, filmar o forte sentido de pertença de grupo e filmar a decadência e a passagem para a maturidade em tempos de guerra. Por isso, Scenes from the Suburbs é um extraordinário filme sobre a memória, sobretudo quando utilizada como escape a uma realidade distópica.

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