domingo, julho 10, 2011

O pintor do cinema britânico


Um olhar sobre o perfeccionismo pictórico do cinema de Joe Wright, que foi o mais jovem realizador a abrir o Festival de Veneza com “Expiação” e que regressa às salas de cinema com o thriller “Hanna”. A primeira parte deste artigo foi publicada no dia 2 de Julho de 2011, com a revista Notícias Sábado, que integra o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias.
O cinema de Joe Wright pode ser considerado como uma extensão do ofício dos seus pais, fundadores de um teatro de marionetas em Islington (onde o realizador nasceu no dia 25 de Agosto de 1972). Wright foi cedo influenciado pela arte de iludir o espectador, colaborando com os pais, realizando pequenos filmes com a sua Super 8 e representando em peças de teatro. A sua formação académica foi porém dificultada pelo grave problema de dislexia. Revelando ainda uma apurada apreciação pela pintura, deixou bem claro, enquanto não começou as primeiras criações, que não seria mais que um carteiro.

Para que o primeiro filme visse a luz do dia foi preciso que a determinação do inglês se mostrasse noutros campos. O seu percurso passou assim pela criação de telediscos e pela Camberwell College of Arts onde realizou em 1997 Crocodile Snap. Com esta notória curta-metragem, foi agraciado com alguns prémios e a oportunidade de trabalhar na BBC a partir de uma bolsa de estudo. É lá onde toma cargo, em 2000, da mini-série Nature Boy. Ainda na televisão, Wright mostra o seu talento em Bodily Harm (2002) e, sobretudo, no épico Charles II: The Power and the Passion, em 2003, onde desenvolve o seu estilo.

De facto, uma estreia cinematográfica com a originalidade formal de Orgulho e Preconceito (2005) deve-se ao engenho do realizador demonstrado pelos trabalhos precedentes. O risco de tornar a adaptar para cinema o romance clássico escrito por Jane Austen deixou rapidamente de ser posto em causa quando demonstrou que era possível transparecer uma marca autoral em filmes de época ou em adaptações literárias, área por onde invariavelmente passou a ser reconhecido. Partindo de um trabalho de fotografia e direcção de actores admiráveis (cujo elenco conta com Keira Knightley, a “musa” do realizador), Wright destaca-se pela vontade de filmar o espaço dramático através do movimento, proporcionador de um raro realismo em filmes de época, e de enquadrar, não raras vezes, os planos como se de autênticos frescos se tratassem.

Seria, por isso, injusto, e como Expiação (2007) comprova, confinar Joe Wright às categorias opostas de cineasta classicista ou realista. Até agora tida como a sua obra-prima, Representada também por Keira Knightley e da jovem actriz Saoirse Ronan (a protagonista de Hanna), esta é mais uma adaptação literária perfeccionista (desta vez de Ian McEwan) que estuda o sentido de ilusão enganadora que move o próprio realizador. Neste melodrama nomeado para 6 Óscares da Academia, Wright exacerba o seu gosto pelo movimento, dirigindo um memorável plano-sequência e que segue a personagem de James McAvoy na praia de Dunquerque em clima de guerra. A colaboração com o compositor italiano Dario Marianelli (vencedor do seu primeiro Óscar) é tão frequente como a que tem com Keira.

O Solista (2009) demonstra a vontade do realizador em testar outros caminhos. Filme sobre um mendigo (Jamie Foxx) movido pelo desejo de tocar na Walt Disney Hall, Wright permanece com a sua marca de autor relativa aos longos e movimentados planos-sequência. Hanna, a estrear em breve, é um thriller que também em nada se parece ao género dos seus primeiros dois filmes.

Parece, apesar de tudo, que o realizador inglês está empenhado em regressar às adaptações literárias e filmes de época. Em curso está a pré-produção de um projecto megalómano: a transposição de Anna Karenina, clássico russo escrito por Leo Tolstoi, e que contará com a participação, de Jude Law e, uma vez mais… de Keira Knightley.

Por um cinema feminista
Hanna” é a quarta longa-metragem de Joe Wright, que nos traz a história de uma adolescente (Saoirse Ronan) que foi treinada pelo pai para se tornar uma assassina profissional. Numa entrevista ao The Telegraph, o cineasta recorda a sua traumática dislexia para justificar o bullying sofrido e a necessidade de o homem se adaptar contra as adversidades da vida. Apesar de parecer outro meteorito na carreira do autor, este filme mantém a sua determinação em ser feminista, estudando fortes personagens sem o enquadramento das mulheres como objectos sexuais e inferiores típico de outros filmes do género. No entanto, e acima de tudo o resto, o realizador considera que o objectivo de “Hanna” é entreter o seu público, mostrando ser possível criar acção com consciência moral e social.
Uma breve opinião
Parece, acabada de ver a quarta longa-metragem de um autor que se empenha em mostrar ao seu público que é efectivamente capaz de percorrer os mais diversos géneros cinematográficos, que Joe Wright se perdeu nas suas intenções quando decidiu adaptar o argumento, pobre e falhado, de Sarah Lochhead e de David Farr. A história que apresenta a anti-heróína original que é Hanna, também é a mesma que impede o espectador de poder compreender os dramas interiores da protagonista e o deslumbramento provocado pela descoberta de um mundo novo, dando preferência a uma acção e um arco dramático que nada mais são senão banais e pouco credíveis. Apesar das interpretações de Ronan e Blanchett e de Wright saber filmar (exibindo o seu gosto pelos planos-sequência), ficamos com a infeliz confirmação que está longe da sensibilidade que demonstrou nos primeiros dois filmes.

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