segunda-feira, junho 13, 2011

Música com Cinema (2): Pet Shop Boys e Janelle Monáe


It’s a Sin, dos Pet Shop Boys
Realização: Derek Jarman
1987

A relação de Derek Jarman (autor de filmes como Caravaggio, Wittgenstein ou Sebastiane) com a música não se esgotou em Jubilee, longa-metragem de 1977 que olha, de perto, e com conhecimento de causa, vivências da Inglaterra punk de então. Ainda em finais dos anos 70 Jarman assinou a realização de telediscos para Marianne Faithfull, que então renascia ao som de Broken English. Já nos oitentas trabalhou para nomes como Marc Almond, The Smiths ou Orange Juice, seguindo-se depois uma sucessão de filmes para canções dos Pet Shop Boys. Para estes, e antes das curtas expressamente rodadas para exibição durante a primeira digressão da banda, realizou um trio de telediscos, todos eles para canções do álbum Actually, de 1987. O primeiro foi precisamente It’s A Sin. Explorando o sentido da expressão “pecado”, projectou Neil Tennant e Chris Lowe em cenário que evoca os dias da Inquisição, o teledisco respirando depois uma familiaridade com o que era então a linguagem cinematográfica de Jarman, apresentando inclusivamente afinidades com ambientes que podemos ver no filme Edward II, de 1991. It’s A Sin é um teledisco ambicioso na produção, sugerindo (mais que relatando) traços de uma narrativa que assim cruza ocasionais ideias com a letra da canção (sem contudo nela procurando um “argumento”). Mais um pequeno filme que um vídeo musical, It’s A Sin conta, além dos elementos do duo, com a participação, no elenco, do actor Ron Moody.

O disco

Single de apresentação de Actually (o segundo álbum de originais dos Pet Shop Boys, editado em 1987), It’s A Sin revelava primeiros sinais de uma ideia de sinfonismo pop que o grupo mais tarde levaria a patamares ainda mais sofisticados com canções como Left to My Own Devices ou Jealousy. Entre os elementos usados na construção da canção contam-se sons captados na Abadia de Westminster. Lançado em Junho de 1987, o single deu aos Pet Shop Boys o seu segundo êxito de primeiro plano à escala global.

Nuno Galopim



Cold War, de Janelle Monáe
Realização: Wendy Morgan
2010

O segundo single do álbum “The ArchAndroid” da cantora norte-americana Janelle Monáe pretende ser um teledisco que vai contra a maré dos telediscos ambiciosos, repletos de elipses temporais e espaciais e montados em função das mesmas. Por sua vez, “Cold War”, realizado por Wendy Morgan, emana uma simplicidade tão invulgar no universo dos mais recentes vídeos que foi completo logo no primeiro (e único) take. Como refere o intertítulo “take 1”, observamos, meramente, de um plano sequência e de um grande plano de Monáe. Não podemos, contudo, descurar a interessante complexidade que se mascara por detrás desta criação. O plano único sugere as origens primitivas do cinema – a fotografia, captadora de um momento e expressão. Neste autêntico retrato foto-cinematográfico, vemos não uma mas várias emoções representadas da cantora. A sua nudez sugere, antes de gratuitidade, uma sinceridade que está ausente neste tipo de obra, aliada à metragem situada no canto do teledisco e à forma como Monáe canta – e ouve – a sua própria canção. De facto, é curioso notar a denúncia do playback na extraordinária passagem das manifestações interiores da cantora, representadas particularmente no seu olhar que agarra a totalidade do vídeo como se tratasse de uma verdadeira Mona Lisa.

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