domingo, maio 22, 2011

Quando a pop é uma arma





Considerada a celebridade mais influente do mundo pela revista 'Forbes', tem ligado a sua música a formas de activismo ideológico.

Mais que um heterónimo, um nome artístico ou uma espécie de alter ego, Lady Gaga transformou verdadeiramente a persona que encarnava a aluna disciplinada e dedicada aos estudos num colégio católico para raparigas (e que então respondia pelo nome de Stefani Germanotta). A cantora tornou-se, em boa verdade, uma referência popular de tal forma influente que o alcance global da fama já merece, na Universidade da Carolina do Sul (nos EUA), um curso que o analisa. Mas parecem querer impor-se as questões: quais foram os meios que tornaram Lady Gaga num fenómeno transversal à cultura pop, e de que forma a sua criação artística tem influenciado uma mudança de atitude do público nos tempos modernos? Talvez as razões sejam mais evidentes do que possa parecer.

Inegavelmente, a jovem mostrou--se ao mundo como um autêntico asteróide visual, que rompe em definitivo com a normalização estética das grandes estrelas da música mainstream norte-americana. Quis que lhe chamassem Lady Gaga, esta enfant terrible da indústria discográfica que rapidamente se tornou na sua nova promessa. Estávamos então em 2008, quando o candidato afro-americano Barack Obama lutava pela presidência dos Estados Unidos e se unia com o país com a promessa simbólica de mudança. Lady Gaga lançava, em paralelo, o seu primeiro álbum, The Fame, surgindo como profunda defensora de dois pilares que a caracterizavam e determinariam, posteriormente, o seu sucesso: a diferença e a individualidade.

Será, por tudo isso, inevitável referir a comunidade LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero) como primeiro motor do êxito da estrela mundial a quem Lady Gaga, agora considerada um ícone queer por excelência, reconheceu o papel na sua carreira, exercendo um profundo activismo pela igualdade dos direitos dos homossexuais. Após ter interpretado o single Just Dance em Maio de 2008 num programa de uma estação de televisãogay, e em Junho na marcha LGBT de São Francisco, e de ter revelado que a canção Poker Face tratava da sua bissexualidade, Lady Gaga participou naquele que considerou “o evento mais importante” da sua carreira: a Marcha Nacional pela Igualdade. Decorreu em Outubro de 2009 e defendia a equidade entre direitos, e que resultou na promessa, por parte do Presidente, que a política militar discriminatória “don’t ask, don’t tell” (que podemos traduzir como “não perguntar, não dizer”, que proibia o serviço militar de homo e bissexuais) seria abolida. São imensas as declarações pró-LGBT que Lady Gaga promoveu com afinco, afirmando que o teledisco de Alejandro, dirigido pelo fotógrafo Steven Klein, “é uma celebração do amor gay”.


A celebração da diferença não se fez exclusivamente aos homossexuais. Muito embora a Malásia tenha proibido a circulação de um dos mais recentes singles, Born This Way, pelo conteúdo que infligia a moral local, e Elton John o tenha considerado como “o novo hino gay”, será no mínimo redutor confinar a canção a esse universo. A aceitação pelas múltiplas diferenças (que apregoa nos 201 concertos da Monster Ball Tour) resume--se na canção do segundo álbum da cantora. Lady Gaga é a mãe dos little monsters, ou monstrinhos (expressão afectuosa com que trata os fãs) e parece querer espalhar a noção de respeito por aquilo que é diferente. Como canta no refrão: Whether you’re broke or evergreen / You’re black, white, beige, chola descent /You’re lebanese, you’re orient / Whether life’s disabilities / Left you outcast, bullied, or teased / Rejoice and love yourself today / ‘Cause, baby, you were born this way (em português, numa tradução livre: Não importa se és pobre ou rico / Se és negro, branco, bege, latino / Se és libanês, se és oriental / Não importam se as deficiências / te deixam apartado, achincalhado ou provocado / Alegra-te e ama-te hoje / Porque, baby, tu nasceste assim).

Podendo ser este lado solidário com a diversidade comparado com poucos (e igualmente ousados) artistas na área da música, vemos ser esbatida, progressivamente, as ideias modernas de beleza. Apesar de a imagem do indivíduo continuar central na sociedade e nos media, pela primeira vez esta deixa de ser uniformizada segundo um padrão imposto. O culto da individualidade faz-se em paralelo com o da diferença – e é nos telediscos que estas mensagens e o mito da sua figura inovadora se dão a ver, para além de todos os concertos e apresentações em público realizados (continua na memória o episódio em que Lady Gaga surgiu, nos MTV Video Music Awards de 2010, com um polémico vestido feito integralmente de carne, sobre o qual se especularam várias interpretações).

O carácter quase anedótico da sua aparência ganhou espantosas proporções, sobretudo aquando da estreia do vídeo de Paparazzi, narrativa que é seguida por Telephone, no qual colabora com Beyoncé. Consciente da força da sua postura, Lady Gaga tornou-se progressivamente, à medida que o sucesso comercial se consolidou, mais ousada nas mensagens que pretendeu transmitir. Em Beautiful, Dirty, Rich, canção que praticamente passou ao lado das atenções de muitos, Lady Gaga queima e nada em dinheiro, surgindo como uma caricatura do capitalismo selvagem promovido por um país abalado pelo rebentar da crise financeira. Já Alejandro insurge-se como o primeiro grande teledisco com uma perspectiva crítica da sociedade, mais especificamente da política e da religião, área que volta a pôr em questão no novo Judas, já de 2011. Vemos, aqui, metaforizada uma ideia da música como arma e meio de opinião, diferindo do universo pop da última década (do qual Britney Spears faz inegavelmente parte), reinado pela alienação social e desinteresse pela realidade.

Lady Gaga é, para todos os efeitos, um ícone cultural e a voz de toda uma geração na era do Twitter (onde foi a primeira a atingir os dez milhões de seguidores). Produto artificial de um sistema que se esconde por detrás da figura pública ou não, o seu poder atingiu um enorme, porventura perigoso, estatuto de influência, acarretando uma responsabilidade social que apenas a cantora poderá ter consciência. Resta-nos aguardar o seu futuro que poderá, para o bem e para o mal, depender do acolhimento do novíssimo álbum Born This Way.


Telediscos com história
A imagem de Lady Gaga foi, para além das suas aparições públicas, sendo moldada sobretudo pelos telediscos que correram a Internet a uma velocidade vertiginosa. Serviram por isso de veículo para a projecção das canções, da cantora como ícone musical, de moda e cultural e das suas polémicas ideias.

Bad Romance
Francis Lawrence, 2009
Reminiscente do perfeccionismo de Stanley Kubrick (com os enquadramentos pensados ao milímetro) o realizador cria, em cooperação com a “Haus of Gaga” que trata da direcção artística, um cenário decadentista e uma coreografia notável que apenas encontra comparação com nomes como Michael Jackson, com o célebre Thriller. Sendo, na Internet, o mais popular dos vídeos da cantora (só no YouTube é o segundo vídeo mais visto de sempre, ultrapassando as 375 milhões de visualizações), Lady Gaga protagoniza a femme fatale que, após ter sido raptada e vendida para uma máfia russa, se vinga matando o homem que a negociou. Popularizando a roupa que vai vestindo, Gaga homenageia Alexander McQueen, terminando da forma mais burlesca possível.

Telephone
Jonas Akerlund, 2011
Sequela directa do teledisco que acompanhou Paparazzi (também realizado por Jonas Akerlund), Lady Gaga responde às acusações de poder ser hermafrodita quando a personagem que encara é levada a uma prisão reservada a mulheresm, onde é forçada a despir-se. A provocação subtil precede a sua libertação pela amiga representada por Beyoncé, chamada Honey Bee (uma menção à personagem Honey Bunny do filme de Quentin Tarantino Pulp Fiction). Este volta a ser mencionado não apenas no estilo dos diálogos mas no carro amarelo que Beyoncé conduz, o “Pussy Wagon” do filme Kill Bill. Engenhoso comentário à cultura pop moderna, Lady Gaga percorre costumes da população, dançando num diner vestida com a bandeira dos EUA.

Alejandro
Steven Klein, 2010
O fotógrafo Steven Klein dirige aqui um teledisco dedicado ao público gay de Lady Gaga. Evocando o filme musical Cabaret de 1972, este vídeo é porventura o primeiro em que vemos expresso um apelo à igualdade. Para além da exploração erótica e andrógina do corpo masculino e das relações entre homens, Lady Gaga veste um fato de látex vermelho e recorre a iconografia religiosa. Profundamente controverso e sedutor, este vídeo de Gaga (que cita a figura de Joana D’Arc) presta ainda uma homenagem, com os seus dançarinos, ao coreógrafo Bob Fosse numa sequência a preto e branco. A cantora faz também deste teledisco uma ode à comunidade LGBT, que passou a servir o Exército norte-americano depois dos silêncios da política “don’t ask don’t tell”.

Judas
Lauriann Gibson e Lady Gaga, 2011
Com lançamento previsto para a Páscoa deste ano e criticado por grupos religiosos, o mais recente teledisco de Lady Gaga é uma moderna abordagem a referenciais cristãos. Transformada em Maria Madalena, que acompanha numa mota Jesus e os seus doze apóstolos, Lady Gaga explora as influências que a experiência de palco na extensa Monster Ball Tour lhe proporcionou para mostrar coreografias mais ritmadas e com mais dançarinos. Como Maria Madalena, tenta, em vão, advertir a traição de Judas a Jesus. Lembrando episódios bíblicos como o lavar dos pés ou o beijo de Judas ou evocando quadros como o O Nascimento de Vénus de Sandro Botticelli, Judas é porventura um dos mais cuidados dos telediscos da cantora.

Este artigo foi originalmente publicado no Diário de Notícias, no dia 21 de Maio de 2011.

9 comentários:

  1. Depois do cinema a música. Muito bem... O Sound + Vision a ter boa concorrência. Gosto disto!

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  2. Uma sugestão: faz, mais vezes, pequenas críticas a telediscos... Não precisam de ter por complemento a longa contextualização deste trabalho. Apenas pequenas críticas, com link depois para os próprios telediscos (aqui não senti a falta de os ver acrescentados ao texto, que já faz um post bem extenso).

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  3. Belo texto, Flávio. Eu sou completo leigo nisto mas pronto, escreves bastante bem, como sempre.

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  4. Mais do que uma cantora/compositora, eu admiro a Lady Gaga. Não pelas suas músicas (não gosto nada) mas pelo ícone, pelo hype e pelo instrumento de comunicação que ela criou. Ela é algo de extraordinário num sentido peculiar.

    Abraço
    Frank and Hall's Stuff

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  5. Obrigado Diogo :)

    É verdade, Bruno, é extraordinário.

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