quarta-feira, maio 18, 2011

A poesia não-bélica de Malick


«Em 1998 escreve e realiza, a partir de um romance homónimo de James Jones, o grandioso filme de guerra «The Thin Red Line», que o fortifica no panorama dos grandes cineastas norte-americanos. Contando com um elenco recheado de estrelas, que, do ponto de vista da produção, auxiliou a promoção e distribuição da obra a nível internacional, Malick foi agraciado com o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim e com sete nomeações para os Óscares da Academia: melhor filme, realizador, banda musical, fotografia, argumento adaptado, montagem e montagem de som, abrindo batalha com o então «rival» «Saving Private Ryan», de Steven Spielberg. Martin Scorsese chegou a considerá-lo como o segundo melhor filme dos anos 90 e o crítico de cinema Gene Sisken como «o melhor filme de guerra contemporâneo». (do post «Seguindo o trilho de Malick»)

Em resposta a um convite no âmbito do destaque deste mês, Pedro Ponte, redactor do portal Ante-Cinema e da revista Magazine HD, evoca o terceiro filme de Terrence Malick - The Thin Red Line (1998). Um muito obrigado ao autor por esta colaboração.

The Thin Red Line, terceira longa-metragem de Terrence Malick, pertence, oficialmente, ao género de Guerra. Essa designação, confesso, sempre me fez imensa confusão. Para mim, este nunca será um filme de guerra, mas antes uma meditação sobre a vida. A guerra é apenas um veículo para examinar a vida, tão válido como o amor, a amizade ou a morte. E, devido à sua capacidade única de descartar o mundano (ninguém se preocupa com contas por pagar ou com o seu clube vencer ou não no fim-de-semana quando há balas a voar à sua volta), é um veículo perfeito para a partir do qual reflectir sobre o que é verdadeiramente importante na humanidade: nós, a forma como nos relacionamos mutuamente e com o que nos rodeia. É isso que Malick persegue em The Thin Red Line, não um retrato realista da guerra. Os melhores filmes de guerra são, sempre me pareceu, os mais realistas, os que mais fielmente conseguem pôr em imagens o verdadeiro horror dos conflitos armados, servindo ao mesmo tempo como documento histórico de algo que aconteceu na realidade. O que apenas reafirma a ideia de que este não é um filme de guerra. A localização do conflito no qual a acção se desenrola é irrelevante, excepto na forma como mostra a diversidade da vida. Poderia perfeitamente passar-se em Washington ou na China e o resultado seria exactamente o mesmo. O único erro maior que pensar que The Thin Red Line é um filme de guerra, é pensar que Malick tem qualquer interesse na Batalha de Guadalcanal. Não tem. E não tem porque não está a fazer um documentário ou a escrever um livro de história, está a tentar fazer arte.

Outro sinal de que The Thin Red Line não é um filme de guerra é o facto de ocidentais e japoneses se equipararem moralmente. Na guerra, tal como em tudo o resto, os seres humanos tendem a equiparar-se no que os define. O típico soldado japonês lutava pelo seu país e pela sua honra – tal como o típico soldado americano. Ele não possuía qualquer influência ou sequer interesse na política da sua nação; era-lhe dito o que precisava de saber, provavelmente o mesmo que qualquer americano, britânico ou alemão, e tudo o que qualquer um deles queria era estar em casa com a sua família. Intrinsecamente, todos valorizamos as mesmas coisas, independentemente das barreiras geográficas ou culturais que nos separam. A dada altura, um soldado japonês pergunta: “Are you righteous? Kind?”. E nessa simples pergunta está a essência do filme – todos nós queremos ser benevolentes e bondosos, ou pelo menos aparentar sê-lo. Quando Witt, a personagem de Jim Caviezel, diz “maybe all men got one big soul everybody’s a part of, all faces are the same man”, a verdadeira natureza humanista de The Thin Red Line torna-se clara e impossível de ignorar.
O filme não retrata a realidade social, emocional, física ou até mesmo espiritual da guerra como esta era feita no período em que a acção tem lugar. Malick não tem interesse nessa aproximação do real, em mostrar como era estar num campo de batalha em 1942. O que lhe interessa é algo muito mais eterno e esquivo; a guerra e a década de 40 poderiam perfeitamente ser o sul dos E.U.A nos anos 50, um romance passado numa fazenda ou o desembarque dos ingleses no Novo Mundo do século XVII – é apenas uma lente pela qual Malick quer ver algo maior.



Se Malick está a tentar glorificar seja o que for através de Witt e da relação entre os soldados, é a glorificação de um homem que está a viver uma existência espiritual na mais visceral de todas as actividades humanas. É através da visão de Witt que tudo é expresso, que a verdade vem até à superfície. Numa das cenas mais belas que Malick já filmou, um pássaro circunda o céu banhado em luz ao som da voz de Witt: “Oh my soul, let me be in you now... look out at the things you've made. All things shining.” Todo o cinema de Malick corre o risco, quase por defeito, de ser acusado de pretensiosismo. E será que um bando de soldados americanos nos anos 40 a recitar poesia é pretensioso? Talvez seja, talvez não. Mas rejeitar o acto de colocar questões filosóficas é, na prática, rejeitar praticamente todos os grandes pensadores da história que defenderam, sem excepção, que estas questões são as únicas que valem a pena ser colocadas. Talvez seja a responsabilidade e a maldição de qualquer artista – seja ele pintor, poeta ou cineasta – continuar a colocá-las, a nós e a si próprios.

Esperar ritmo, sequências de acção e explosões de The Thin Red Line é ser-se ingénuo. É tudo demasiado lento e contemplativo para agradar a qualquer junkie de acção. Há um, e apenas um momento em que o filme consegue oferecer isso (a carga da personagem de John Cusack), em que a acção é linear e se vislumbra um fim distinto. Nesse instante, sim, estamos a ver um filme de guerra, com um plano devidamente elaborado que arranca de nós uma reacção imediata, pondo-nos a torcer pelos “bons da fita” – que não existem no resto do filme. É a única cena em que The Thin Red Line se aproxima da linearidade de Saving Private Ryan (o “outro” grande filme de guerra de 1998) precisamente pela sua simplicidade. É o único momento em que não nos é exigido que pensemos mas apenas que sintamos, em que é possível vislumbrar-se um verdadeiro payoff. Não que a cena tenha menos valor por isso – pelo contrário –, é apenas uma peça do puzzle fora do lugar, num filme que não tem princípio nem fim, cuja história é tão relevante como num poema de Garrett. Tal como na poesia, o que há a encontrar aqui é beleza.

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