quinta-feira, maio 05, 2011

A dualidade entre a crueza e a inocência de Badlands

«Em 1973, inspirado na história de vida do “spree killer” Charles Starkweather e a sua namorada Caril Ann Fugate e eventos ocorridos em 1958, Terrence escreve, produz, realiza e ainda actua como figurante na sua crua e inesquecível primeira longa-metragem «Badlands», protagonizada por Martin Sheen (que, interrogado por causa da atitude anti-media de Malick, ressalta o carácter humilde e acolhedor do realizador) e Sissy Spacek.» (do post «Seguindo o trilho de Malick»)
Em resposta a um convite no âmbito do destaque deste mês, Pedro Cabeleira, autor do blog Estúpido Maestro, evoca o primeiro filme de Terrence Malick - Badlands (1973). Um muito obrigado ao autor por esta colaboração.
Falamos agora de um casal que matou, torna-se fugitivo e pelo caminho, mata mais algumas pessoas. Não se trata de Natural Born Killers de Oliver Stone. Isto é outra coisa, é a primeira obra de Terrence Malick, “Badlands”. Eventualmente, o seu filme mais forte, aquele que, diria, converge todo no mesmo sentido.

Poderia bem ser a história de um casal que matou, que se torna fugitivo e pelo caminho mata mais algumas pessoas, mas Malick assim não o quis e é com alegria que digo que não assistiremos a um qualquer hino maniqueísta insultuoso para o reles bandido. Não é também a história de uma fuga, é demasiado fresco para ser a história de uma fuga. Não acredito que seja uma história de amor, é demasiado cru para ser uma história de amor. É-me verdadeiramente difícil dizer sobre o que é “Badlands”, consigo-o apenas falando do que realmente sinto sobre o filme, uma humilde procura de uma humanidade néscia submissa aos seus impulsos.

Como propõe Malick este tema denso? Talvez encontrando a subtileza no simples acto de matar por amor? No egoísmo inconsciente de nos querermos manter próximos de outra pessoa? De continuar a cheirar um corpo? De continuar a ouvir uma voz? De continuar a contemplar um rosto? De continuar a tocar com delicadeza algo que nos sabe bem? Penso eu que é por tudo isto que Malick nos faz compreender a ingenuidade de dois jovens que fogem quase até ao fim. Não são maus, simplesmente tentam compreender os seus impulsos, aquelas pequenas vontades que não conseguem esconder e a que não conseguem fugir. Como tal, procuram cada vez mais isolar-se, aproximam-se cada vez mais da Natureza, tentam o eremitismo, tal como Ferdinand e Marianne em “Pierrot le Fou”. E é belíssimo estar com tudo o que esta Terra arrancou quando é Malick que filma e trata o verde e o castanho, a suavidade e o prazer do que nos rodeia, ele acalma-nos, é perseverante na forma como filma, e nós sentimos tal benevolência com isso que é impossível não desfrutar pacientemente de tal eloquência visual.

Assim, fugir a “Badlands” torna-se irrealizável por dois motivos, provavelmente por mais, mas por dois motivos que me chamam imediatamente a atenção.

A eloquência visual do autor não consiste simplesmente em captar o pitoresco. Não se tratam de breves prazeres, mas sim de algo mais trabalhado e sentido, onde cada ser pode ir buscar um detalhe que o fira, mas que o fira docemente, que o fascine, e toda esta conjugação de uma beleza total e ao mesmo tempo detalhada faz com que quem veja este primeiro objecto cinematográfico de Malick sinta um deleite quase indescritível. Diria que é como se nos sentíssemos a levitar, como se a nossa carne e pele fosse suave e lentamente vítima de magnetismo e naquele momento perdêssemos noção da gravidade.

Depois, pela forma como trata o tema, pela forma como ronda a limpidez jovial quase virtuosa, é inescapável interrogarmo-nos sobre a forma como compreendemos o que nos envolve. Deste modo, perturba o ser no pensamento, esta sua ambivalência que nos enche de calma e ao mesmo tempo inquietos, o que torna este filme cada vez mais cativante. Ficamos confusos, porque ele puxa por nós de tal maneira que pomos em causa a concepção daquilo que nos rodeia.

Muito mais há a dizer sobre “Badlands”, mas não direi. Termino, arriscando dizer que, devido à forma como Malick cria beleza e constrange intelectualmente, esta sua primeira obra é poesia.

Pedro Cabeleira 



2 comentários:

  1. Belo texto, parabéns. É, de facto, muito difícil dizer sobre o que é este filme, pois consegue ser sobre muita coisa, e com grande sensibilidade, destreza e beleza. É o meu favorito de Malick e esse é um estatuto que tem vindo a cimentar ao longo dos tempos.

    ResponderEliminar
  2. Bom texto sim senhor :) é um grande filme sem dúvida embora a minha preferência recaia no Days of Heaven.

    ResponderEliminar

Assine, sempre que possível, o seu comentário.