domingo, abril 17, 2011

Road to Nowhere - Sem Destino


A 67ª edição do Festival de Veneza, cujo júri foi presidido por Quentin Tarantino, agraciou, com o Leão de Ouro, Sofia Coppola pela sua obra desinteressante, dir-se-ia quase inútil, deixando na penumbra o veterano Monte Hellman, realizador que regressa ao mundo do cinema após ter construído carreira nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos da América. «Road to Nowhere» não é filme que se assemelhe a «Somewhere»: se o segundo é falho nas suas intenções (ou, melhor dizendo, falho na tentativa de transcrever as das películas que a precedem), o primeiro mostra bem a determinação, passados vinte e um anos, de um cineasta em entrar no mundo dos filmes, apesar de saturado pela indústria hollywoodesca.

Sob as luzes do universo lynchiano, é construída aqui, como outros também o fizeram, uma resposta ao mistério ontológico da criação da imagem cinematográfica, debruçando-se sobre a realidade re-presentada (isto é, tornada presente) durante a rodagem de um filme. É, talvez, por isso que ele mesmo subleve o género, seja o thriller ou o romance noir, olhando, distante e sabiamente, para o panorama artístico norte-americano. O realizador-protagonista não é, por isso, senão o espelho de Hellman, que se olha para si mesmo como um criador de várias realidades, ainda que indissociáveis. É curioso perceber como o argumento, brilhante e mordazmente escrito, não se revolve em nenhum problema especificamente apontado, engolindo o espectador numa «vida imaginada», à falta de melhor expressão, e que ganha maior evidência nos últimos momentos do filme, nos quais nos perdemos num jogo infinito de espelhos e de câmaras de filmar. Fala-se de Scarlett Johansson e do desejo de a ter com a mesma facilidade com que se filma as entrevistas da Variety, como se se quisesse apresentar uma certa imbecilidade do sistema, compreendido por quem está por dentro e por quem o quer denunciar.

Para além das ideias enunciadas que, apesar de não propriamente inéditas, estão servidas de um tratamento singular, convém ressaltar o trabalho técnico que completa o produto final. Filmado totalmente em formato digital, com Canon 5D, «Road to Nowhere» é daqueles raros exemplos em que a fotografia resultante serve o «realismo» do filme, adequando-se, para além da montagem de som, à interpretação da bela Shannyn Sossamon, ambos inesquecíveis.

Também a busca pela matéria para uma obra perfeita, «obra-prima» como insiste o protagonista em denominar «As Três Noites de Eva», «O Sétimo Selo» ou «O Espírito da Colmeia», se apresenta no espírito obcecado de Hellman / Haven, chegando ao final aceitando a dureza e contrariedades da vida – ou, melhor considerando, da morte –, que, sem dúvida, são mais fortes que as reproduzidas e controladas pelo próprio cinema.

3 comentários:

  1. Tenho muita curiosidade neste filme, nunca vi nada do senhor Hellman.

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  2. Aquele gajo que não entrou..17 de abril de 2011 às 20:55

    Não gostei muito deste filme. Achei a imagem terrível, parecia daqueles tele-filmes de baixo orçamento. Tem dois ou três momentos sublimes. E embora a actriz principal tenha estado excelente, achei a representação de uma série de actores secundários a dos típicos actores de filmes amadores.. Do Monte Hellman gostei do Cockfighter..

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  3. Não vi mais nada do Hellman mas fiquei com curiosidade. A ver se vejo esse Cockfighter!

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