terça-feira, fevereiro 15, 2011

Sobre a definição de arte, a discussão que a envolve e a urgente sublevação das mesmas

Longe de mim ter credibilidade suficiente para ser levado a sério neste tipo de discussões, mas não consegui deixar de experimentar dois sentimentos que têm vindo a surgir, não com pouca frequência aqui na blogosfera e sobretudo a partir do momento em que comecei a tirar uma licenciatura em cinema, que são o sentimento de confusão, quanto à definição de arte, e, por consequência, o de revolta, perante as respostas que tenho lido, seja dos «profissionais» da Estética (Kant ou Goodman são bons exemplos) como daqueles que aqui discutem.

Para mim, a discussão quanto à questão «o que é Arte?» (ou «quando é Arte?») foi levada, total e irreversivelmente, à exaustão, sobretudo a partir da fase em que nos encontramos, o chamado pós-modernismo. Quando passamos a considerar tudo o que existe «arte», então há uma perda completa de critérios. Por outro lado, quando usamos um rol complexo de referências como: «se é Arte, tem função simbólica»; «se é Arte, não é constituído de artifício»; «se é Arte, é original»; «se é Arte, é uma expressão individual dos sentimentos do homem»; «se é Arte, provoca emoções»; «se é Arte, é passível de ser percepcionada por mais alguém que o próprio autor»; «se é Arte, é verdadeiro ou procura a verdade». E este é um termo curioso, «verdade», que Tarkovsky – um dos maiores e melhores mentirosos do Cinema (e também o meu preferido)! – muito prezou ao longo do seu trabalho, conceito sem dúvida diferente dos russos dos primórdios do cinema como Vertov, mas que apenas tinha uma função legítima (ainda que ilusória) com ele (como comprovamos com o seu livro belíssimo, «Esculpir o Tempo»), e poucos outros. Bom, para mim, «arte» e «verdade» (assim entendida), termos que até agora dei muito uso nos meus textos e argumentos no que concerne estas querelas, passaram a algo de vazio, inútil. Se a arte é tudo, então para mim a arte não existe; e se a arte é apenas uma forma de contar histórias, então para mim a arte não existe; se a arte tem que ser agradável ao público, então para mim a arte não existe; se a arte tem que ser a busca pela verdade, então para mim a arte não existe. Sendo-vos sincero, para mim esta discussão deixou há muito de ter fundamento, visto de fora é risível a disputa entre forças (eu naveguei entre várias), e são tantas que nem pelos meus dedos posso contar.

Antes de «arte», preferirei chamar «expressão/ões», ou «formas de expressão». E há a cinematográfica, a musical, literária, etc; as que têm o intuito de comunicar, e as que se mantêm na sua individualidade. Nesta sociedade que corre demasiado rápido, e que apresenta derivadas e cada vez mais tecnologias, não me posso dar ao luxo e desprazer de me manter nesta discussão milenar e, actualmente, anacrónica. Esta definição globalizante, por exemplo, do cinema, não impõe que cineastas como Aronofsky, Nolan, Almodóvar, Pedro Costa, Spielberg, Tarkovsky e a realizadora «por encomenda» do «Crepúsculo» estejam no mesmo patamar, evidentemente que não. Aqui, então, entramos na zona dos critérios, que cada um criará como mais lhe convier (e aqui ressalto que não existe uma questão de «justiça», porque não há, simplesmente, como legitimar os meus critérios e a minha cultura como valendo mais que a de um cinéfilo simplório que se contenta com filmes recheados de explosões), e entramos noutro tipo de discussões: «por que razão acho que este filme é mau/bom?». Para mim, por exemplo, um filme é tão melhor quantas mais qualidades eu encontrar nele, ainda que, por mais que as tenha, não me possa identificar em absoluto. E eu ligo aos filmes que me fazem crescer interiormente e nos quais o «modus operandi» do(s) criador(es), as problemáticas e a sua existência como um todo me digam tudo e mais alguma coisa, que acrescentem algo a mim, como sou e me envolvo no mundo que me rodeia. Mas eu sou eu (não há ninguém igual a mim, felizmente), e haverá, certamente, pessoas que não se identifiquem com este, à falta de melhor palavra, critério.

Isto para evidenciar como o argumento «não é arte» é inútil e absurdo, tal como a discussão que o procede, e para me demonstrar descontente com tanta ideia preconcebida que, sustentada na «Arte», surge. Pois eu digo que é momento de ultrapassar isso, com grave urgência. Se os filmes servem para dividir opiniões, então é altura de falarmos sobre eles. É nestas alturas que nos descobrimos melhor – e ao outro também.

6 comentários:

  1. Embora me possa colocar no campo do "tudo é arte", concordo em grande medida com o que tu escreves. Também me parece que a discussão do que é ou não arte é um pouco estéril.

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  2. Flávio, o texto está excelente, parabéns!

    «Se os filmes servem para dividir opiniões, então é altura de falarmos sobre eles»: não poderia concordar mais.

    Cumps cinéfilos.

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  3. "Para mim, por exemplo, um filme é tão melhor quantas mais qualidades eu encontrar nele"
    Quando começas a fazer isto com a Música? :P

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  4. Garanto que não é spam:

    http://www.flickr.com/photos/20792787@N00/3351470362/

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