terça-feira, maio 11, 2010

Persona

Há dias, sobretudo nos que vão merecendo uma profunda introspecção, que me lembro da existência de um filme que, seguramente, se enquadra naquele género de obras que são capazes de mudar vidas, consciências e, como feliz e última consequência, identidades. É, pois, sobretudo sobre isso que discorre este magnífico, magnífico Persona, uma reflexão psicanalítica, única e imbatível sobre a individualidade do ser humano e a sua afirmação no meio social, a explosão do ego revoltado, o caminhar para um inconsciente recôndito e assombrado pelos fantasmas das mais essenciais questões da vida. Para além do mais (e para dizer algo que será sempre pouco para uma análise, posterior, pessoal e profunda, sobre a fita), é um tratado sobre a aparência versus realidade, a fusão de personagens e todo um universo bergmaniano verdadeiramente solipsista (apesar desta ideia estar implícita em vários momentos, sobretudo nos finais), dando a impressão, chocante e misteriosa, que tudo o que acabamos de ver não foi obra do mestre sueco, foi obra dos nossos sentidos, da nossa experiência pessoal e memória – que é, em última instância, aquilo que nos torna EU. Há, assim e de forma imprevisível, uma reviravolta que (con)funde o espectador como o actor, denunciando a persona que não o faz ser EU, mas fá-lo ser o falso mundo que o rodeia. Onde está, então, a nossa verdadeira existência, a pedra basilar da nossa alma? Neste experimento cinematográfico (do melhor que o cinema foi vendo em toda a sua história), verdadeiramente libertador (a qualquer nível, seja formal, narrativo...), a identidade não dá lugar para o colectivo – porque nós somos para nós, nós somos o universo que criamos, nós somos os falsos actores da peça de teatro, eterna e dilacerante, que Ingmar Bergman concebeu para atingir a totalidade do seu próprio EU, fugindo da sua persona com um magistral golpe de génio.

7 comentários:

  1. Persona não é um 10/10... é um 1000/10!

    Um dos meus filmes preferidos de sempre. Toda a desconstrução do cinema e do "eu" é magnífica.

    Parabéns pelo texto!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Tal como o Neuroticon, é um dos meus filmes preferidos de sempre e, claro está ;), o meu preferido do Bergman. Gostei muito do texto :)

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  4. opa
    achei seu blog por aee
    mto bom cara
    esse filme ae nao tive oportunidade de conferir..no entanto bom o seu texto...

    tenho um blog de cinema se tiver interesse passe por la
    estou seguindo aki ja
    abraço

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  5. É Bergman, é bom.Persona. Melhor ainda.Top 10:)

    Beijinho

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  6. Neuroticon e Álvaro: é o meu preferido do Bergman. Deu-me para o rever e sem dúvida alguma é um dos melhores filmes alguma vez realizados... :) Podia escrever e escrever sobre ele, tal como vocês. Obrigado ;)

    Airton, sigo-te também. Obrigado pela visita.

    Abraços

    Manuela, está no meu também. Persona vale mesmo por si só. :)

    Beijinho

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