domingo, maio 30, 2010

Cidade de Deus - análise sociológica

Mais que possível, podemos considerar urgente a análise de Cidade de Deus - realizado, em 2000, por Fernando Meirelles baseado no romance homónimo de Paulo Lins -, um precioso objecto sociológico na medida em que retrata, com exímia factualidade, a realidade social vivida nas favelas do Brasil, como será comprovado de seguida, a partir de uma curiosidade sociológica sem dúvida importante. O filme é, por si só e apesar da ficção que se monta, uma espécie de análise documental das múltiplas tramas que se entrecruzam naquele fatídico local.

Situamo-nos em Cidade de Deus dos anos 60 – uma favela carioca situada a oeste do Rio de Janeiro construída poucos anos antes da altura com que iniciamos a primeira linha temporal no filme. O nosso protagonista, Buscapé, inicia um monólogo descrevendo a cultura carioca e de favela onde está inserido. Nestas circunstâncias, reparamos com facilidade como esta é apreendida pelos habitantes, tal como é partilhada entre eles, concretizando por fim um dado modo de vida, que determinará como consequência as formas de pensar, agir e sentir da população de Cidade de Deus. 

É-nos primeiramente mostrado um campo de futebol onde ocorre a interacção social (com a linguagem, etc.) entre dois tipos diferentes de pessoas, com faixas etárias igualmente distintas: Buscapé e os seus colegas, incluindo o Dadinho (futuro Zé Pequeno) e Bené; e Cabeleira e Marreco. Podemos induzir que as crianças os tomam como modelos e representações sociais a serem seguidos, avaliando pela altivez que inspiram e a segurança, ou seja, os comportamentos decorrentes da socialização com todos os valores envolventes. Este caso voltar-se-ia a reparar quando Bené atenta no estilo de vida, vestuário e penteado de Cenoura, tentanto a custo imitá-lo de forma a integrar-se no núcleo de amizade deste, moldando uma identidade colectiva.

No entanto, a representação social do bandido (que, por sua vez, é produtor de um estigma futuro) e o grupo de referência remete-nos a uma facção social menosprezada e reprovável: a dos bandidos, enfim, a dos que ganham a vida “não fazendo nada”, ou assaltando, como é o caso (visto que assaltam um camião de gás e, depois, um motel). Buscapé, que nem imaginaria de certo como Dadinho se tornaria vil no futuro, di-lo com firmeza no início quando ele lhe tira a bola: “Dadinho, por exemplo, parecia que já tinha nascido bandido”. Nesta frase do personagem, remetemo-nos, dispostas as coisas deste modo, para a consideração de que havia no grupo de crianças uma socialização formal praticamente ineficiente (visto que a escola, se presente, constituía uma nula referência, excepto mais tarde, nos anos 80, onde Buscapé serve-se da escola para conhecer colegas que seriam marcantes na sua vida e história pessoais), uma socialização informal engrandecida de forma extremamente negativa e uma anomia social evidente, reflectindo-se, mais tarde, nos comportamentos. A socialização primária, feita pela família (que em todo o caso mostrava um modelo monogâmico), por que passaram as crianças não é motivadora de uma secundária positiva – já que os modelos parentais existentes não são dos melhores. Tomamos como exemplo os pais de Buscapé: se, a este, transmitiam as mais básicas normas, valores e regras sociais, fazendo-o aprendê-las, imitá-las e identifcar-se com eles, ao seu irmão já não o conseguiam influenciar mais, visto que este, tendo em conta a socialização secundária realizada com os seus grupos de colegas e de amigos foi, por oposição, negativa.Há uma geral ausência de valores, certo é que relativos ao espaço.

Na Cidade de Deus, constatamos a existência de uma maioria étnica, que potencialmente suscitaria reacções racistas, como é o caso de Zé Pequeno face à presença do Cenoura, referindo-se a este não poucas vezes como “branquelo”. Esta liberdade de difusão do preconceito e da forma como actua o pensamento individual leva-nos a crer, ainda que de forma errónea, que existe apenas, na favela, “bastidores” nos espaços sociais, na medida em que há uma convivialidade extremamente informal. No entanto, e se tivermos em conta a traição amorosa feita pelo irmão de Buscapé (que acabaria no assassínio da mulher pelo marido – representativo das desigualdades a que eram sujeitados os habitantes de sexo feminino e da violência doméstica, ou seja, distinções de sexo e género) e se tivermos em conta a criação das duas tribos rivais no domínio prático do bairro e a subconsequente infiltração de traidores, chegamos á conclusão de que existem também as chamadas “fachadas”, com o culto pela aparência e o recalcamento de certos comportamentos, tendo em vista o disfarce e o controlo social.

Tal se sucede, também, pela tentativa de alcançar um estatuto social desejável. No caso de Zé Pequeno, podemos considerar que as suas expectativas e desejos de se tornar um certo tipo de pessoa no futuro foram cumpridas. Assim, podemos dizer que se, inicialmente, Zé Pequeno tinha um estatuto inato, pois não tinha controlado o meio desfavorecido que nascera, este também alcançou o estatuto de realização, pois esforçou-se em adquirir um determinado modo de vida. Chegado a “líder” da Cidade de Deus, com acesso gratuito a qualquer tipo de armamento, Zé Pequeno acaba por reproduzir um certo arquétipo de vivência social, isto é, limites na actuação dos habitantes, obrigando a que estes tomassem certas condutas, posturas e linguagens tendo em visto a “tribo” que defendiam. Assim, registamos um controlo social informal, exercido através de sanções negativas não escritas, mais eficazes e, sem sombra para incertezas, mais trágicas e implacáveis (neste caso preciso, a morte de quem não viesse de encontro com as normas pressupostas). Assim se mantinha a ordem social, tendo em conta a durabilidade e a imposição de uma ou outra tribo, lutando cada uma pelo alcance de uma mudança social a fim de se transformar as estruturas básicas de Cidade de Deus. 

Apesar de rivais, podemos distinguir este grupo social de líderes e habitantes da favela com outro grupo social, o núcleo de jornalistas para onde Buscapé acabará por ser empregado. Eram estruturados, promoviam e partilhavam interesses, objectivos e valores comuns, exerciam um certo controlo social e eram, sem dúvida alguma, distintos e distintitivos. Havia, pois, uma inegável consciência colectiva e de pertença. Caberia a Buscapé decidir por qual dos grupos sociais queria este enveredar. Óbvio torna-se a sua escolha pelo grupo de referência dos jornalistas, e não o de pertença dos habitantes de Cidade de Deus.

Esta decisão mostra bem as desigualdades sociais vividas no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Quem vive numa favela pertence, claramente, a uma classe claramente desfavorecida e baixo, tendo que suportar a ausência de recursos essenciais, como o gás (tome-se como exemplo o assalto ao camião no início do filme) fruto de uma pobreza em termos de capital econónimo que, por consequência, leva a baixos capitais social, cultural e simbólico. Tal não significa que não posso ocorrer uma mobilidade social ascendente. Aliás, tal acontece com Zé Pequeno e Bené, ou Buscapé, de forma intrageracional.

Este negro quadro levará à observação directa da última consequência: a pobreza absoluta, agarrada, diversas vezes, ao chamado “pensamento mágico”, e a exclusão social materializada na criação da favela, ao sentimento subjectivo de insegurança na vivência, e a um círculo vicioso de miséria. O termo, por si só, faz-nos pensar num “gueto” onde residem as piores pessoas, criminosos, desempregados, e pessoas que não se esforçam para melhorar as suas vidas.

O filme é obviamente brutal na passagem da sua mensagem, mas Fernando Meirelles conseguiu suscitar a nível nacional, no seu país, um debate intensivo na política de ordenamento de território e organização das favelas. De facto, registou-se um melhoramento na vida da população, no sentido de haver mais segurança policial e uma melhoria das condições. No entanto, podemos considerar que foi preciso um filme baseado em histórias reais com visibilidade internacional para que fossem enfim tomadas medidas, ainda que haja muito por fazer, no Brasil e no resto do mundo, para combater estas desigualdades sociais. Como foi referido, “Cidade de Deus” é precioso como objecto de estudo sociológico, urgente para quem quer tomar consciência do estado do mundo que lhe rodeia e para suscitar a ideia de responsabilidade e fraternidade colectivas.

6 comentários:

  1. Uma obra sublime. O melhor filme brasileiro que vi.

    ResponderEliminar
  2. Também
    já vi a ser apelidade como o melhor filme brasileiro!

    Abraço
    Cinema as my World

    ResponderEliminar
  3. Manuela, para já, é também o melhor brasileiro que até hoje já vi. Mas falta-me ver muita, muita coisa. Estou para ver, em breve, O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol, já viste?

    Beijo

    Bruno, vimos todos ;)

    Abraço

    ResponderEliminar
  4. Flávio,ai a mim também me falta ver muita coisa. Esses que mencionaste ainda não vi. Estou aqui às voltas a tentar lembrar-me do nome de um filme brasileiro que vi e gostei muito, mas por agora, não adianta. Quando me lembrar eu digo:D

    Beijo

    ResponderEliminar
  5. Central do Brasil de Walter Sales.
    Fiz uma postagem sobre ele, se quiseres vai dar uma espreitadela.

    Lembrei-me;)

    ResponderEliminar
  6. foi so eu que achei que esta analise nao tem fundamentos ???????

    ResponderEliminar

Assine, sempre que possível, o seu comentário.