terça-feira, março 30, 2010

"Lolita", Vladimir Nabokov

Mais do que um ícone, um fenómeno cultural do século XX, um estudo sociológico e psicológico do moderno pensamento, o controverso Lolita é, principalmente, uma bela história de amor.

Parecerá, na melhor das hipóteses, minimamente estranho a categorização da obra como um “romance” (não no sentido narrativo e formal, mas de temática), já que o russo Nabokov, dotado de uma capacidade criativa que é por demais magnífica, tende a explorar, mais do que o amor segundo as concepções clássicas, temas como o erotismo, o desejo sexual e o prazer que cometer certas “atrocidades” morais proporciona aos nossos protagonistas — Humbert Humbert, um intelectual quarentão natural de Paris, e Dolores Haze, uma pré-adolescente americana de doze anos que, para o narrador, pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar do soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita. Humbert introduz-se a si mesmo, admitindo ser, até, no capítulo 20, um criminoso sexual, tentando justificar-se ao leitor com a seguinte passagem: Senhoras e senhores do júri, a maioria dos delinquentes sexuais que anelam por qualquer relação física, mas não forçosamente coital, com uma rapariguinha, são inofensivos, inadaptados, passivos e tímidos desconhecidos que só pedem à comunidade que lhes consinta o seu chamado comportamento aberrante, praticamente inofensivo, que os deixe praticar os seus pequenos, apaixonados, húmidos e discretos actos de desvio sexual sem que a polícia e a sociedade lhes caiam em cima. Não somos demónios sexuais! (…) Não somos, positivamente, assassinos. Os poetas nunca matam.

Após a apresentação de Humbert, que segue a sua vida até conhecer a rapariga, com uma escrita extremamente fluida, cativante (para não dizer hipnotizante) e com pinceladas de comédia negra brilhantemente dadas, somos introduzidos aos esforços e métodos usados no sentido de este se aproximar, em todos os sentidos, de Lolita (até com a mãe chega a casar para facilitar o trabalho!). A segunda parte do livro é começada logo após a morte da mãe, que faz com Humbert e Lolita fiquem juntos e se inicie, entretanto, uma conjuntura trágica desfavorável para o destino dos dois.

Podemos, então, equiparar esta estrutura narrativa com a de um guião cinematográfico. Com capítulos curtos e uma narração que, ainda que seja feita do ponto de vista de Humbert, é objectiva, podemos facilmente pensar num tradicional guião de cinema, estruturado em três grandes partes, com todas as suas cenas e pontos de viragem. Misturando um romantismo e realismo inegáveis, este pequeno grande clássico da literatura mereceu adaptações à grande tela, em 1962, por Stanley Kubrick, realizador de “Laranja Mecânica” e “2001: Odisseia no Espaço” (o slogan how did they ever make a movie of Lolita? é-nos suficientemente elucidativo para percebermos como tinha sido bem aproveitada a polémica que girou em volta do livro), cujo argumento foi escrito pelo próprio autor, e em 1997, por Adrian Lyne, que, por não ter sido utilizado o guião de Nabokov, introduziu as cenas de sexo que no livro estão descritas. A sátira que é inerente à obra é, de certa forma, algo inédita, por denunciar a imbecilidade das formas de agir, pensar e sentir do ser humano, estilo que se impôs nas artes, nas décadas seguintes (o premiado Beleza Americana, de Sam Mendes, onde o nome do protagonista, também este com tendências pedófilas, Lester Burnham, é um anagrama para “Humbert learns”, segue, a seu jeito, moldes nabokovianos evidentes).

Muito se pode retirar de Lolita, mas é principalmente a crítica ao homem contemporâneo do Ocidente que deve ser, por todos nós, aproveitada para reflexão posterior. Brilhante na maioria dos seus aspectos, o livro merece ser lido e relido, pois pertence, seguramente, aos grandes clássicos da literatura.

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