domingo, março 14, 2010

Disponível para Amar

Há qualquer coisa de simultânea e paradoxalmente compreensível e indefinível na gramática de Disponível para Amar ou, se quisermos incorrer a generalizações, no cinema de Wong Kar-Wai. Se, por um lado, consideramos que o autor tem criada, aqui, uma ponderada lógica formal e narrativa na demonstração das múltiplas jornadas do ser humano que se entrecruzam, por outro, consideramos também que a abordagem subjectiva e indirecta de tratar o interior do homem é, tal como ele, indeterminável e dotado de uma imprevisibilidade e desentendimento distintivos. A sua arte é e não é subtil: é-o em comparação ao folclore hiperactivo dos filmes que afundam as actuais salas, e não o é pois, ainda que com um requinte paulatino, testemunha e guarda, com uma alegria, uma energia e um calor evidentemente sensacionistas, as memórias de um universo que transborda, todo ele, tão fora como dentro da mente dos anónimos actores, de uma beleza fulgurante e extrema. O que não é, na verdade, ambíguo e flutuante na forma como Kar-Wai cria é o reconhecimento da importância daquilo que faz, sobretudo deste filme – estudar o amor e, sem cair nas conhecidas americanizações, reformular a maneira como é este tratado, tendo sempre em atenção manter a sua original forma, é, dizemos para nós, uma árdua tarefa. O poeta do oriente tem, e sabe-lo bem, o dom de a fazer com uma deslumbrante facilidade e esta grande, grande obra é um bom exemplo disso.

Desmistificando a ideia de que é preciso haver concretização e consumação física para a existência (ou o assumir) de algo de tão cristalino como o amor, vemo-lo captado, a par da angústia advinda da existência das barreiras da moralidade e das convenções sociais ou do prazer quase orgásmico na simples vivência do quotidiano (um pouco como em “Um Homem Singular”, a recente estreia debutante de Tom Ford, curiosamente também ambientado nos anos 60), em sequências, quase dependentes entre si, que fundem, na totalidade, a preciosa imagética e a música. Se na representação mais objectiva da realidade encontramos deliciosos enquadramentos dos nossos dois protagonistas, casados, que se unem pela espontaneidade das circunstâncias do dia-a-dia, interpretados magistralmente por Tony Leung e Maggie Cheung, tal como achamos diálogos naturalistas de magnífico pendor, então na representação mais subjectiva do mundo, onde a câmara se embebeda pela psique das personagens, temos extraconsiderados, pelo slow motion, os singelos gestos de cada um, a linguagem corporal e emocional que por si dita a beleza, filmados através de sequências que valorizam o perfeito casamento entre a luz brilhante, a hiper-saturação, o contraste das cores que pintam o guarda-roupa e os cenários escolhidos a dedo; a música, repetida, leve e trágica (seja “Aquellos ojos verdes”, “Quizas”, ou, particularmente, “Yumeji’s Theme”); a montagem, atípica e delinquente. Cada frame evidencia uma acuidade e reflexão possantes onde até o tempo, que se perde em si à medida que a história se intensifica e auto-mutila, desempenha um fulcral elemento. Assim se justifica o título original da película, "A época das cerejeiras", aludindo ao simbolismo que a flor de cerejeira representa, o amor, a beleza, a juventude e a passagem do tempo. O que o nosso casal protagonista afigura estende-se por todos os espectadores que com disposição recebam a fita. A liberdade de poder amar e de poder ser amado é, talvez, um dos bens mais raros da humanidade.

Assim, tudo é essencial para maximamente ser vivido – assim é a filosofia do asiático que, tendo escrito e realizado o filme, acabou por nos deixar o que acaba por ser uma das maiores histórias de amor do cinema. A sequência que, por fim, vos deixo é das mais belas (não haverá palavra mais certa) que alguma vez verão ou voltarão a ver. Resta-nos agradecer a Kar-Wai.
9,5/10

2 comentários:

  1. Por acaso, e depois do que já vi de Kar Wai, nem achei a cena assim tão deslumbrante lol Tenho que colmatar esta falha, mas não encontro o DVD em lado nenhum...

    Já viste o 2046?

    Cumps.
    Roberto Simões
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  2. Eu já vi o 2046!
    Em breve faço a crítica!

    Também quero ver este!

    Abraço
    Cinema as my World

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