terça-feira, fevereiro 09, 2010

Expiação

Recuemos uns poucos anos atrás no tempo e recordemos como, posto em termos cinematográficos, o ano de 2007 ficou, decididamente, assinalado por uma espécie de hipnotismo e deslumbre, certo é que não generalizado, pela tour de force comandada sob a égide de um pequeno grande cineasta britânico chamado Joe Wright. Se alguns, inseridos no meio aparentemente especializado, o consideraram um feito que, sendo visualmente ambicioso, se perdia numa sentimentalista, frustrante e estereotipada colagem de cenas, outros viram no filme um poderoso e belíssimo acontecimento artístico, que marcaria o meio durante anos. Nomeado e premiado com distintas estatuetas, facto é que a adaptação do romance literário de Ian McEwan contou com catorze nomeações para os BAFTA, tendo destes ganho os prémios de melhor filme e melhor design de produção; sete nomeações para os Globos de Ouro, vencendo os de melhor filme dramático e melhor banda sonora; e oito nomeações para os Óscares, levando para casa apenas o de melhor banda sonora. A razão pela qual considero que a película deve, pois, ser reconhecida a nível global, e que tentarei esclarecer de seguida com esta análise, prende-se com uma simples, ainda que potencialmente controversa, evidência pessoal. “Expiação” é, autenticamente, um dos melhores romances alguma vez produzidos para cinema.

Deixemo-nos levar numa viagem no tempo e no espaço e abramos os olhos no dia mais quente do Verão de 1935, aquecendo um escape à cosmopolita capital de Inglaterra, que se encontra na iminência de uma segunda e nova guerra à escala mundial. O cenário, imaginado pelo escritor britânico que já nos trouxe obras como “O Sonhador” (crítica), “Primeiro Amor, Últimos Ritos” e mais dez romances, e reproduzido e adaptado pelo açoriano Christopher Hamtpon, será decisivo para contextualizar o leitor / espectador do crime que será cometido e do término de uma invisível fusão que haveria entre dois diferentes planos da narrativa. No primeiro deles, encontrámos a solitária Briony Tallis, uma sonhadora mas desencantada rapariga de treze anos que ambiciona atingir a grandiosidade dos grandes escritores e que vive sufocada pela banalidade, monotonia, pela atenção da família de classe alta, rígida e atenta nos seus códigos normativos e pela incompreensão dos primos em relação ao seu precoce trabalho de ficção literária. No segundo plano, temos a sua irmã, Cecilia Tallis, e o filho da criada da família, Robbie Turner, amigo de infância, que voltou há pouco de Cambridge. Neste dia, o mais quente da estação presente como dissemos, a vida dos três, que se interligarão de maneira irreversível, mudará para sempre. O deslumbramento que envolve os momentos precedentes ao crime que será cometido é tremendo mas o mais interessante é denotar a evidência de um espectro contínuo que é disforme para os nossos três protagonistas: se Cecilia se despe e mergulha naquela fonte parada, para ela será pela necessidade de mostrar a contida frustração de uma ligação romântica que nunca o chegou a ser, para Robbie será pela mostrar a clarividência dos seus erros e descuidos, para Briony será pela obrigação sádica e manipuladora do homem pelo qual nutre a sua primeira paixoneta tornando-o, assim, mais vil e merecedor de atenção que nunca. Qual, destas três, será a verdadeira realidade? Nenhuma — pois o que se pretende mostrar é a subjectividade da assimilação empírica de uma mesma “verdade”, e mostrar a relatividade da interpretação de um mundo físico (qual a nossa legitimidade de considerarmos que este existe?), tornando-o repleto de representações e transfigurações colectivas e dogmáticas, que raramente (ou nunca) baterão certo. Tudo é apreendido conforme o jogo recíproco de expectativas e as pessoais impressões de cada personagem, cuja dinâmica psicológica cairá, numa trágica inevitabilidade, num choque de passadas certezas incertas, passe-se a redundância, que jamais coincidirão. Estamos perante a plena harmonia no pleno caos. A dúvida é a origem dos piores equívocos e é interessantíssima a forma como o próprio e inactivo espectador se torna agente de um engano grupal, na recta final da película. Somos arrastados, ainda que advertidos por subtis imagens, para uma errada suposição, uma que levaria para um final feliz para o casal sobre o qual nos debruçámos mas rapidamente descobrimos que nos mentiram. A pergunta é: será válida a frustração que por aí advém, a vitimização pessoal por cairmos na imaginação do artista? Não procurámos nós, a ver o filme, a ficção, a irrealidade, uma mentira? Por que motivo reclamamos um engano se nos deixamos enganar? De qualquer das maneiras, caso a dúvida não existisse (pelo menos na totalidade), poderíamos presumir que Robbie e Cecilia elevariam a tensão existente entre os seus desejos escondidos e recalcados para um desenvolvimento mais natural e saudável da sua relação, pois estariam já entrevistos dos sentimentos de um e outro, tal como deduzimos, mais do que qualquer outra coisa, que a (não tão) inocente Briony não se orientaria pelo impulso, pelo ciúme e pelo anseio de protecção da irmã e não cometeria o seu maior erro, separando o nosso casal protagonista para o resto da vida, pois se habituaria, entretanto, da relação dos dois. A dimensão trágica acarretada por uma simples, pequena suposição é magistralmente retratada já que o estudo do contexto e do âmago do interior das personagens, coadunados, propiciarão o desenrolar da segunda e mais objectiva parte da obra. Convém, por isto, relembrar antes outro elemento simbólico de grande importância, tal como é o da fonte: a carta, sem a qual nada disto teria também acontecido. Aqui, navegamos num universo de “ses” — se Robbie nunca tivesse partido a jarra, escrito uma carta e entregue a errada, se Briony nunca tivesse lido a carta de Robbie e o visto com Cecilia na biblioteca, se Cecilia tivesse aceitado conversar com Robbie, enfim, “se tudo” então nada seria perpetrado e teria ocorrido ou, melhor dito, tudo se sucederia de forma diferente, possivelmente para melhor. Esta teoria da causalidade, demonstrada bem em películas como “Irreversível” (Gaspar Noé), está aqui bem presente: dela subsistem as memórias da escritora, transpostas na película desde que prepara a sua “primeira peça” até os seus últimos dias. Será esta interminável relação entre uma causa e um efeito que a perseguirá até o leito da morte, reavivando a culpa e a vergonha interiores que crescerão progressiva e dolorosamente. A reparação, tema central que dá título à obra, será feita ao mesmo tempo na procura constante do atenuar da culpa, da absolvição pelo pedido de perdão e pela ajuda a terceiros (daí Briony se ter tornado enfermeira). Culminada num trabalho de ficção que procura a consolidação de uma inexistente felicidade, a expiação do espectro que é a nossa fascinante protagonista nunca será, totalmente, completa, pois a procura de remissão moral terá, pelo castigo do tempo, duras impossibilidades de ocorrer. É, portanto, nisto tudo que o filme prima: pelo retrato de uma grande história de amor, com o reavivamento dos clássicos obstáculos, pela descrição social de um mundo afundado em divisão de classes e em guerras ideológicas e escusadas, pelo ensaio moral sobre a culpa, a redenção e o perdão, pela reflexão filosoficamente poderosa da causalidade e da impossibilidade de lutarmos contra o tempo, inimigo comum de todo o ser humano.

Aliar uma narrativa tão complexa e rica em detalhes merecedores de uma atenção acrescida a uma técnica igualmente brilhante seria, à partida, uma tarefa herculeana, mas Joe Wright fê-lo, a aplaudimo-lo com veemência. Sendo a sua segunda longa-metragem depois de outro filme de época e adaptação literária (o primoroso “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen) e antecedendo um terceiro que formal e narrativamente foge de si (“O Solista”; crítica), podemos afirmar, e bem, que o cineasta inglês impôs um estilo próprio, no âmbito sobre o qual se debruça, o da realização. A tarefa de liderar e captar o interior dos protagonistas (magnificamente representados por Keira Knightley, James McAvoy, Saoirse Ronan e Romola Garai) produziu-se através da frequente recorrência em metáforas e simbolismos visuais, uns para completar uma narrativa não inteiramente verbal, outros para servirem de escape privado do realizador da própria produção fílmica (as andorinhas, como ele próprio o afirma, estão presentes esporadicamente para divertir o espectador mais concentrado). Contrastando com perfeição estética todo o caos e drama vividos, Wright é o cozinheiro de um festim para os olhos, de maneira a deliciar o maior público — com um olho modelar e seguido dos cânones e uma fotografia belíssima (encarregue de Seamus McGarvey, director de fotografia d’As Horas), o cineasta aproveita para introduzir uma das suas mais admiráveis marcas: os takes longos e harmoniosos. Será sempre uma absoluta dificuldade descrever os cinco minutos da praia em Dunquerque, por onde Robbie e os soldados ingleses deambulam, vendo a morte e a esperança cantarem de mãos dadas numa mórbida e encantadora felicidade, agarrados ao fim de mais uma guerra. A certeza que existe é uma: a que estamos, aqui, perante uma das melhores cenas filmadas para a grande tela de sempre. 

Meditado o universo pictórico, tempo é de fechar os olhos e deixar que a mente concentre esforços na poesia sonora de Dario Marianelli. Ousado e inédito, o compositor italiano, que participa pela segunda vez com o realizador, utiliza a máquina de escrever como se de um instrumento musical se tratasse, iniciando o filme com a música Briony, uma sequência frenética de sons apressados que, por si só, reflecte a personalidade da figura desconhecida que nos é apresentada. A máquina de escrever, conjugada com um grande jogo melodioso com violinos, é também introduzida noutros momentos, apenas de grande tensão, como podemos ver em músicas da banda sonora como Come Back, na sua recta final, terminando numa violenta e gélida música de órgão, ou em With my Own Eyes e Cee, You and Tea O destaque vai, claramente, para três músicas: Love Letters, que lembra um jogo romântico entre o piano o violino, assustadoramente pesaroso e, ao mesmo tempo, apaixonado, Farewell, que inclui o tema principal de Robbie e Cecilia e que resume, na sua essência, o filme (músicas que se lhe seguem, como The Cottage on the Beach ou Atonement seguem a mesma linha lógica referida), e Elegy for Dunkirk que, consensualmente, tal como a cena anteriormente caracterizada, é a melhor de toda a banda sonora. No que poderia ter resultado apenas num vulgar e elementar conjunto de notas melódicas que facultassem, ao espectador e ouvinte menos rigoroso, o mínimo de comoção geral (ao nível emotivo mais comum nos filmes romântico-dramáticos), o melindroso e genial Marianelli cria uma autêntica montanha-russa de sensações auditivas que, com as notas que se vão entrelaçando, apesar de melodramáticas, resultam numa magnificência musical que levou aos nossos ouvidos um trabalho intemporal e sinceramente memorável.

Daí toda a urgência e necessidade em ver e rever esta refulgente e sublime película, uma das melhores alguma vez apresentadas, pelo casamento perfeito entre a narrativa e a técnica, elevando-a ao inegável estatuto de clássico e de obra-prima.

10/10

9 comentários:

  1. O filme que me ensinou a gostar de filmes de época. Monstruosamente bem realizado, Atonement é um dos melhores filmes da década e de sempre.
    Excelente crítica... como de costume. :)

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  2. Olá flávio!
    Obrigado pela participação no 'cine Freud', é sempre convidado a retornar :)

    A respeito do post, não vi este filme.
    Mas vi o anterior "o video de Benny". Achei uma obra tão peculiar. A proposta em si é vista em outros títulos, mas a abordagem fria trás uma realismo muito grande. E certamente não é preciso fazer uso de grandes alarmes para causar impacto naquele que vê.

    Um abraço.

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  3. Tiago, dizes muito bem, "monstruosamente bem realizado". Se todos os filmes de época estivessem nas mãos de Wright ;) Obrigado pelas palavras amigas!

    Renato, antes de mais bem-vindo a'O Sétimo Continente! Voltarei, certamente, ao seu espaço. EXPIAÇÃO é uma obra que vale a pena ser vista. Quanto a BENNY'S VIDEO concordo em pleno - é um filme de um realismo cru que resulta, efectivamente. Daí a urgência, por exemplo, de o exibir em escolas, etc.

    Abraços!

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  4. Monstruosamente bem escrito ;D Que crítica deliciosa... quase - quaaaaase - tão brilhante como o filme ;D

    O filme é sem dúvida magistral.

    Um filme delicado: com um delicado argumento, uma delicada banda sonora, uma delicada encenação e um delicado cuidado e bom gosto. Joe Wright é o poeta da subtileza. Uma mão, um gesto, um olhar. Simples, suave, sublime. Magnífica adaptação da obra de Ian McEwan, um todo lúgubre, harmonioso na recriação histórica e um verdadeiro portento na representação: Keira Knightley, James MacAvoy, Saoirse Ronan. Por vezes, os poetas da subtileza esvoaçam ainda para o éter da arte... A retirada na praia de Dunquerque é deslumbrantemente perfeita. Que cena. Que feito.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  5. Depois de uma crítica destas, de uma pontuação destas e de uma parte do filme que visionei no youtube, só me resta ver o filme!

    Abraço
    http://nekascw.blogspot.com/

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  6. Excelente crítica mais uma vez. Depois disto só resta mesmo ver o filme.

    Abraço

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  7. Saoirse Ronan, suprema neste filme!

    Apesar de não gostar da Keira - ela realmente está bem no filme, mas o grande triunfo do filme é a atuação intensa de James MacAvoy!

    Belo texto,

    Abraço!

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