sábado, janeiro 17, 2009

A Casa dos Horrores de Rob Zombie

robzombie

Já com três longas-metragens no currículo (entre elas o remake do clássico de 1978, "Halloween"), Rob Zombie tem uma abordagem muito própria do género de terror, e os seus filmes valerão certamente a pena ser vistos, daqui a uns anos, por qualquer aficcionado pelo género.

"The House Of 1000 Corpses - A Casa dos 1000 Cadáveres"
house1000-corpses

"Run, Rabbit, run!"
Um grupo de amigos viaja por altura do 31 de Outubro à procura da árvore onde Dr. Satan, conhecido serial-killer, terá sido enforcado. Pelo caminho, e depois de darem boleia a uma desconhecida, alguém dispara para um dos pneus do carro, impossibilitando-os de prosseguir viagem. A desconhecida logo os convida a ir a sua casa, onde o carro deles poderá ser reparado e onde eles podem descansar um pouco daquela noite chuvosa, numa demonstração de hospitalidade que soaria suspeita a qualquer um. É claro que ela está envolvida com os maus da fita, e é claro que a intenção dela não é ajudá-los, mas sim garantir que eles chegam ao covil da serpente.

Escrito e realizado por Rob Zombie, o filme revela um invulgar exercício de estilo: desde o tipo de imagem, que se parece com os videoclips da banda a que pertence, desde a banda sonora, até aos diálogos. É um filme cru, que, não estando isento de clichés, não se importa de os utilizar em seu cruel proveito: e quando pensamos que algo vai acontecer, nada melhor que vermos as voltas trocadas. Sem medo de arriscar, ao espectador é-lhe apresentada a descida dos jovens adultos (que, para não variar, melhor fariam se tivessem ficado em casa) a um inferno de tortura e sadismo, onde o gore existe, e em quantidades suficientes para deixar qualquer um indisposto.
Tem as suas cenas, e tem a particularidade de não assustar apenas pela banda sonora: um clima de tensão e terror é criado convenientemente, e há cenas que chegam a ser perturbadoras, como a show-stealer em que uma das personagens, a certa altura, protagoniza uma espécie de variante sangrenta d'Alice No País das Maravilhas. Há, no entanto, coisas que ficam para esclarecer: o motivo da família entrar nestas matanças desenfreadas, por exemplo. Mas nada disso importa: o mais importante, ao fim e ao cabo, é obtermos uma resposta para a questão: "Será que o Dr. Satan existe realmente?". E nós, ao menos, podemos obtê-la no conforto de sabermos que se trata de ficção: os protagonistas que, pelo caminho vão vendo os seus corpos despedaçados, tiveram menos sorte. Em jeito de nota, um facto curioso: filmado em 2000, "A Casa Dos Mil Cadáveres" só conseguiu ser distribuído em 2003.

"The Devil's Rejects - Os Renegados do Diabo"
devilsrejects

"RABBIT!"
Sequelas a filmes de terror não são algo incomum: veja-se o caso de "Saw", que já vai no quinto filme; "Friday The 13th", que teve uns 10; "Nightmare On Elm Street", que teve uns 7... contudo, uma sequela que leva o universo do primeiro filme a um patamar superior e acrescenta dimensões às personagens que conhecíamos, em vez de se limitar a reciclar a história do anterior apenas mudando algumas situações e, como é óbvio, o nome das personagens, é ago raro. Ainda para mais, se tivermos em conta que aqui seguimos a jornada de alguns dos vilões do primeiro filme, e não os bonzinhos que nos apresentaram anteriormente. Encontrámo-los em fuga, ao mesmo tempo que um xerife, querendo vingar a morte do irmão às mãos de Spaulding e companhia na prequela, empreende um interrogatório a Firefly, único membro da família a ser capturado.

O filme desenvolve, então, as relações de Baby, Otis e Spaulding, enquanto eles fazem mais umas vítimas e tentam escapar à justiça. Tornando-os (o mais possível, lá está) humanos, "Os Renegados Do Diabo" tem a vantagem invejável de conseguir que, ainda que não torçamos por eles, os compreendamos. E uma pergunta transcende todo o filme: quem é, afinal, o verdadeiro monstro aqui? Eles, que matam sem remorsos, ou o xerife Wydell, que não liga aos meios para concretizar a sua vingança pessoal, mesmo que isso signifique tornar-se semelhante (ou pior) àqueles que persegue?
A cena que melhor espelha esta dúvida é, sem dúvida, o jogo do rato e do gato protagonizado por Baby e Wydell entre o gado. Os papéis foram invertidos, os predadores tornaram-se agora as presas. Uma história que se afasta do "preto no branco" do anterior, para mergulhar o espectador num clima acinzentado, onde cada personagem tem razões válidas a fundamentar as suas acções. Uma esforço bem-conseguido por Rob Zombie, que, mais uma vez, não teve medo de arriscar, e teve até coragem para inovar.

"Halloween"
halloween1

"I like the mask because it hides my face."
Tinha grandes expectativas para este filme. Contudo, é fácil constatar que este é um remake de "Halloween", filme que celebrizou Jamie Lee-Curtis (e cujas sequelas, em que ela participou, devem tê-la feito vítima de um flagrante typecasting) totalmente dispensável e que constitui, até, um passo atrás na carreira de Zombie como realizador.
Ora, convém esclarecer que o filme é divido em duas partes: uma em que nos é explicado como Michael Myers apanhou o gosto pelo homicídio e outra, passada quinze anos mais tarde, em que Myers procura a irmã mais nova. Os motivos dessa procura são uma incógnita, mas algumas conclusões acerca disso podem ser deduzidas: sozinho no mundo, talvez queira reencontrar a única pessoa por quem ainda pode nutrir uma reminiscência de afecto. Contudo, tudo o que dissermos não passa de deduções, uma vez que, explicadas as origens do serial-killer, em quarenta minutos interessantes e elaborados, o filme passa então a ser um típico slasher, em que quem faz muito sexo tem morte certa, e em que a banalidade da forma como as mortes ocorrem é gritante. Àparte, claro, do confronto final entre ele e a irmã, Laurie, que, tendo sido adoptada em bebé por outra família, não se lembra dele. Aí, o filme consegue surpreender por alguns detalhes, e criar um bom clima de tensão.
Mas não passa disso. As ideias de Zombie eram boas: os diálogos, na segunda parte, são engraçados e bem-escritos, e a primeira parte é um estudo cuidado sobre o processo de criação do mítico homicida. Mas, no fim, poucas são as coisas que nos ficam na memória: talvez uma Scout Taylor-Compton a gritar o mais alto possível enquanto foge pela rua, ou a cena que precede a morte da irmã mais velha de Michael. Uma oportunidade desperdiçada, em que Zombie não conseguiu pegar no clássico e fazer uma versão sua, distinta. Soa a pouco... quem sabe na sequela (cuja existência é provável, a julgar pela cena final algo dúbia) ele consiga fazer algo semelhante a "Os Renegados do Diabo". E isso, sim, talvez valha a compra do DVD.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Assine, sempre que possível, o seu comentário.