domingo, março 09, 2008

"Um Amor Feliz", David Mourão-Ferreira

Um escultor à beira dos sessenta anos, uma estrangeira duas décadas mais nova que ele. Além da diferença de idades, ambos estão casados - ele com uma pediatra, ela com um homem poderoso, mas com quem tem pouca intimidade. Os dois conhecem-se num jantar de boas-vindas a um casal seu conhecido e começam a encontrar-se furtivamente, no atelier dele. São estes, simplificando, os elementos que servem de base à história deste romance de estreia (no género) de David Mourão-Ferreira.
"Um Amor Feliz" foi considerado, aquando da sua publicação em 1986, pelo seu autor como sendo "um cântico de amor e de paixão erótica; uma sátira política a certa nova sociedade portuguesa; um romance do romance em que se vêem acareados o narrador e o autor; um ajuste de contas comigo mesmo".
Ora, em relação ao cântico de amor e de paixão erótica, essa é uma boa descrição para a obra. Ao longo das cerca de 300 páginas do livro, vão-nos sendo narrados os desenvolvimentos do romance entre o narrador - cujo nome, "Fernão", só descobrimos perto do final - e Y, uma mulher de 36 anos que ele conhece no tal jantar ao longo do ano anterior. Pelo meio, conhecemos ainda outras personagens, como a mulher do narrador, com quem ele mantém uma relação distante; Floripes, a mulher que trata das limpezas do atelier, responsável pelos diálogos (ou, atendendo à natureza da personagem, será melhor dizer monólogos?) mais engraçados da obra; a filha dela, Zu, de quem falarei mais à frente com mais detalhe; a mãe do narrador, agora num lar com alzheimer; a mulher a quem o romance é dirigido.

Em primeiro lugar, e antes que estejam a pensar que a mulher se chama mesmo Y, deixem-me clarificar esse ponto: logo no início do livro, é-nos expressa pelo narrador a vontade de não divulgar o nome da personagem por achar que não é isso o que mais interessa; diz-nos também que, pelo simples facto de lhe atribuir o nome de Y, já a está a tornar diferente do que ela realmente é. Em relação à personagem em si, é-nos caracterizada fisicamente, na maior parte das vezes; quanto à sua psicologia, normalmente são as suas acções que nos permitem caracterizá-la. É um pouco inibida, a início, devido ao casamento em que se encontra - ficamos a saber inclusivamente que ela e o marido já não praticam relações sexuais há anos -, mas mostra-se, na maior parte das vezes, simpática e é alguém de que passamos a gostar com facilidade.
Posto isto, falemos então da simbologia de Y e Zu. Por várias vezes na obra, o narrador menciona uma personagem do passado - Xô -, com quem ele tivera uma relação no passado. X, Y, Z. Xô representa, então, para o narrador, o passado, Y representa o presente e Zu, a filha da Floripes de 24 anos, poderá representar o futuro, como todos os que leram sabem. Assim, não será muito descabido concluir que talvez tenha sido este o objectivo do autor ao pôr os nomes destas três personagens com aquelas iniciais. Já em relação a estas, temos também a mulher do narrador, que é talvez a única figura que pertence tanto ao passado como ao presente e que continuará a pertencer ao futuro.
A escrita do livro é acessível e fácil de compreender; tem a vantagem de não nos maçar com grandes descrições - não que eu não goste, mas também não sou propriamente apologista de meia página dedicada a descrever um dado lugar ou personagem - e é directa. Gostei particularmente dos diálogos, bem construídos, e que nos mostram como as personagens se relacionam entre si, como neste excerto de uma conversa entre o narrador e a mulher, no capítulo 28:

o“(…) - Nesse caso vou banquetear-me, desculpa lá o sadismo, em qualquer restaurante de Cascais.
- O sadismo está desculpado.
- Não me posso demorar. Já é mais tarde do que supunha.
- E levas essas calças? Não me digas que vais com essas calças…
- O que têm as calças?
- Estão cheias de nódoas.
- Ah!... Não tinha reparado.
- E além disso amarrotadas. Parece que andaste de joelhos a cumprir alguma promessa.
- Enganas-te. Fui…
- Não estou a querer saber aonde é que tu foste.
- Mas eu estou a querer contar-te. Fui dar uma volta. Espairecer até ao campo.
- Acho lindo. Muito bucólico.”
Quanto às descrições, como disse, não abundam, e normalmente dizem respeito ao vestuário das personagens, como esta:
"O mesmo vestido, leve, num vivo tom de verde, não se confunde todavia com o de nenhum dos outros verdes que a rodeiam: antes com todos se harmoniza, como se fosse o verde que ainda ali faltava."


Já quanto à crítica social de que o autor fala naquela frase, ela está presente no livro de forma satírica. É-nos descrito o contexto político da época - uma sociedade pós-25 de Abril -, falando-nos da forma como as pessoas - ou, mais propriamente, o narrador - via aqueles ligados à política, como neste excerto:
"De regresso ao meu caldeirão, mal-humorado, e olhando de novo aqueles oligarcazinhos de meia tigela, que bebiam e comiam de tudo com tão boa boca, avidamente metidos até ao gasganete em negociatas de batatas ou de batotas, em tráficos de terrenos ou de terrores, acudiu-me a conclusão de não ser por acaso que"poder" e"podre", em português, se escrevem fatalmente com as mesmas letras."

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No início, mencionei que a mulher a quem o livro se dirige. A verdade é que "Um Amor Feliz" é um extenso relato dos acontecimentos que preencheram o ano anterior dirigido a uma amiga do narrador - da qual nunca chegamos a saber o nome -, que, também ela mais nova que ele uns vinte anos, com ele cria uma forte empatia nos diversos encontros entre o seu marido e a mulher dele, ambos colegas de profissão. Ela é uma autora de poesia erótica e mantém uma relação romântica com um escritor famoso. Por falar dela, devo então apontar o aspecto que, pessoalmente, menos me agradou no livro: a maior parte das personagens principais é adúltera ou, então, há indícios de adultério. Quanto a vós não sei, mas este é um tema que me faz alguma confusão, retratado no contexto histórico dos nossos tempos, onde, contrariamente ao que se passava há alguns séculos, não há qualquer obrigatoriedade a permanecer num casamento. Contudo, neste aspecto, o livro ganha pontos ao mostrar que pelo menos o narrador não está satisfeito com uma relação clandestina e que espera poder viver com a Y.
Em conclusão, posso dizer que esta foi uma obra da qual gostei muito. Começa muito bem e acaba de forma perfeita, com um final meio em suspenso. Apesar de, lá para o meio, haver algumas partes menos bem conseguidas, li tudo em dois ou três dias. Recomendava este livro por, apesar de ser uma história romântica, nunca ser "lamechas" ou aborrecido. Há sempre algo que nos prende e que nos faz continuar. Um grande romance, sem dúvida.

2 comentários:

  1. Não percebi essa amiga do narrador que escreve poemas eróticos é a Y???

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  2. David Mourão Ferreira um escultor que ao longo da sua vida de escultor, amou e esculpi as mulheres na sua mais bela natureza, não o conheço mas gostava de um dia poder ter essa honra de conhecer um Homem que também defina as mulheres ... Fernanda Rebelo

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