quinta-feira, março 20, 2008

"A criança que não queria falar", Torey Hayden

Todos os dias novos livros são publicados. Muitos deles são livros banais, com histórias já vistas e revistas, com fantasia a mais. Neste livro podemos encontrar uma história verídica que de banal não tem muito.
Escrito por Torey Hayden, uma brilhante professora, este livro conta a história de uma menina que foi abandonada pela própria mãe adolescente, que levou consigo o filho mais novo. Ficou apenas na guarda do pai, que passou os primeiros anos da vida dela na cadeia, culpado de assalto e agressão. Desde que foi liberto que passou longos períodos no hospital estatal por alcoolismo e toxicodependência. Enquanto isto, Sheila andou de casa em casa, na maioria familiares da mãe, mas acabou abandonada na berma de uma auto-estrada, onde foi encontrada às grades metálicas que separam as vias desta. Com apenas quatro anos de idade foi levada para um centro de protecção à criança, onde lhe detectaram graves cicatrizes e fracturas provocadas pelos maus-tratos sofridos. Mas acabaram por voltar a confiá-la ao pai. Passou então a viver numa barraca de uma divisão num acampamento de imigrantes. A casa não tinha aquecimento, nem água… nem sequer electricidade! Uma criança com este passado e com este presente talvez igualmente trágico não poderia viver com absoluta sanidade mental ou física: ela era pequena e frágil, devido a uma subnutrição e tinha graves problemas mentais.
O livro não dá muito bem a entender se foi o primeiro ou o último encontro dela com a polícia… mas começa com a notícia de um. Este encontro foi causado por um grave crime: Sheila, com apenas seis anos, raptou um menino de três anos (do acampamento), levou-o para um bosque, amarrou-o a uma árvore e pegou-lhe fogo. A criança ficou em estado crítico.
A partir daqui começa o desenrolar da história. Sheila é proposta a um hospital psiquiátrico, mas não há vagas. A única solução que parece aceitável é uma escola especializada, solução esta que foi aceite. De início pareceu complicado, pois a professora para onde foi enviada, Torey, já tinha o número máximo de alunos na sua turma. Mas, como o caso era urgente, a professora teve de ficar com nove crianças.
Começou tudo como previsto: mal. Sheila não se adaptava (também, penso que é normal uma criança com esta vida não se adaptar) e assustou ainda mais as outras crianças. Imensos episódios trágicos aconteceram e fizeram Torey aperceber-se de que tinha algo muito grande em mãos, que teria de dedicar todas as suas forças para ajudar esta criança. Foi então que laços muito fortes entre as duas começaram a existir e a crescer, dia após dia. Aquela escola passou do pior pesadelo à única coisa boa que aquela criança tinha. Todos os dias se dirigia para lá feliz por ir e vinha embora feliz por lá ter estado. Sheila começava a aprender o significado da palavra tão usada hoje em dia, mas tão pouco vista em prática: a felicidade.
De escrita fluente e leitura fácil, cada página deste livro é vivida com grande intensidade pelo leitor. A dor, a emoção, o amor, apesar de com muita simplicidade estão muito bem descritos. Não podemos deixar de nos envolver e comover, de percebermos melhor um mundo de demência, maus-tratos, falta de amor, mas em que reina a inteligência, a força e a audácia… e a vontade de viver e de sobreviver. Este livro mostra-nos o quanto a vida pode ser cruel e o quanto nós podemos lutar contra a crueldade, lutar contra a fúria, contra o rancor, contra as nossas maiores fraquezas… e como os laços são importantes, como cativar alguém muda a nossa vida (são mencionados muitas vezes excertos da grande obra “O Principezinho”).
Ao ler esta história ficamos com vontade de pertencer a este grupo, de entrar na melhor turma do mundo… “esta turma de malucos”, como Sheila diz.
“As pessoas interrogam-me, muitas vezes, sobre o poema pendurado na parede do meu gabinete. Parece-me de inteira justiça que conheçam a criança que o escreveu. Só espero ter tido metade do seu talento para escrever este livro.”
Curiosos? Aconselho-vos a ler.

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