segunda-feira, dezembro 17, 2007

"Orgulho e Preconceito", Jane Austen



Com uma edição de bolso de apenas 278 páginas, numa edição - com imperfeições - da Europa-América, mentiria se a dissesse que a sua pequenez não me cativou pois, apesar de não ser um requisito indispensável, o tamanho de um livro é, para mim, um factor a ter em conta - pelo que não advinho horas muito prazerosas diante das cerca de 800 páginas d'"Os Mais", livro que terei, obrigatoriamente, de ler para a disciplina de Língua Portuguesa -, já que nem sempre existe disponibilidade para a leitura. Porém, como começava agora as férias, senti que tinha tempo suficiente e o livro revelou-se de tal forma interessante que o acabei em cinco dias.

Bem, mas o que dizer sobre a obra? Antes de mais, quero falar das características que me levam a considerá-la um romance histórico e que são fáceis de adivinhar: o grau com que nos são retratadas as paisagens, quer urbanas, quer rurais e a forma como nos é descrita a forma de pensar e agir da sociedade de então, esta última originando, indirectamente, o título do livro pois, ao longo da história, é-nos muito falado do orgulho dos privilegiados e do seu preconceito em relação às classes inferiores a si. Ficamos, então, de forma geralmente irónica, a saber como a sociedade se regia no início do século XIX, data em que este livro é publicado pela primeira vez, coisa que me agradou.

Quanto à escrita, como já salientei, é muito boa. Sempre atenta aos detalhes, mas sem aborrecer, a escritora não perde tempo e, a cada capítulo, existem sempre novas situações a acontecerem. Devo, contudo, denunciar a forma rotineira como grande parte da história se passa pois, se por um lado nos mostra quais eram os divertimentos das diferentes classes, por outro começa a ser previsível ao ponto de sabermos que, ao final de um capítulo, um novo jantar, almoço, baile ou qualquer cerimónia do género será planeado. É por isso que, tendo consciência desse mesmo aspecto da história, Austen astutamente introduz, com grande regularidade, novas e diversificadas personagens na história, evitando assim a repetição que se poderia, a alguma altura, instalar e tornar a leitura enfadonha. Se bem que também essa ideia acaba por ter uma outra face pois, um pouco mais à frente na história, chega a ser confuso lembrar os laços que unem as muitas personagens e as relações entre si.

Em relação à história, o romance apresenta-se com o mote de que "é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa" e alonga-se pelas suas quase três centenas de páginas a dar-lhe uma conclusão. Não vos querendo estragar muito a experiência, o enredo começa com a chegada de um jovem rico - o Sr. Bingley - à vizinhança, e somos levados a crer que será ele o par amoroso da protagonista Elizabeth Bennet, a segunda de cinco irmãs, coisa que não se sucede, pormenor que apreciei pois foi um bom... twist, digamos, para a história já que seria um cliché se assim fosse. As peripécias que se vão sucedendo à volta das duas famílias principais - Bennet e Bingley, precisamente - são muitas e quase sempre muito interessantes, apesar de, claro, haver aquele aspecto rotineiro da história. Bem construída, a narrativa oscila entre o drama e o romance, mas sempre com um toque de comédia lá para o meio, pelo que são várias as vezes que nos enternecemos e que torcemos pelas personagens, bem como são muitos os momentos em que nos rimos com elas - e, neste campo, nada me fez mais rir que a dinâmica da relação dos pais de Elizabeth. Só tenho é a lamentar a forma como algumas personagens são descartadas da história, como por exemplo Mary, uma das irmãs de Elizabeth, que, comparada com algumas das outras, é quase uma figurante ao longo de toda a história, e nunca tem oportunidade de se afastar da unidimensionalidade que a caracteriza.

Se, ao fim de umas meras vinte páginas, este livro já se candidatava a ser um dos meus favoritos, quando o fechei pela última vez foi com a certeza de que era o meu favorito - não sou uma pessoa com uma lista de livros lidos infinita, mas já li alguns autores e posso dizer que, perante a monumentalidade deste livro, um "As Palavras Que Nunca Te Direi", de Nicholas Sparks, empalide, quer pelo seu cariz melodramático, quer pela sua natureza fútil, por completo - tanto que, passados quase 200 anos, ainda há pessoas a ler um, enquanto que duvido que o mesmo aconteça com o segundo. Há qualquer coisa na história, aliás, há muita coisa, que nos faz olhar para "Orgulho e Preconceito" com outros olhos, e não há como não sentir uma certa nostalgia perante o espaço temporal retratado.
Diria que é de fácil leitura, e só tenho mesmo a queixar-me da teatralidade inicial dos diálogos. Li as últimas 170 páginas durante o dia de hoje e, sendo eu um leitor casual, que farão os que estão mais habituados! Acho que agradará a quem procure uma boa história romântica, mas não "lamechas" Quanto a mim, falta ver o filme.


P.S.: Obrigado, Isabel, por mo recomendares!

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