sábado, setembro 29, 2007

Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho

Este é mais um daqueles exemplos em que, para compreendermos da melhor forma todos os detalhes que compõem a história que o filme quer contar, precisamos de assistir ao filme mais que uma vez. Não por falta de inteligência ou de atenção, simplesmente porque existe ali tanta coisa, tantas metáforas (visuais e não só) e tanta coisa que nos faz pensar que só à segunda (ou à terceira, quem sabe?) o compreendemos verdadeira e completamente. Mas será "Lost in Translation" um daqueles casos que podem ser considerados como sendo "clássicos instantâneos"?
Bem, por onde começar?! Há aqui tanto a ser dito que nem sei por onde começar. Ora, o argumento, em primeiro lugar. Original e extremamente bem-escrito pela realizadora e co-produtora do filme Sofia Coppola (memorizem o nome, prevejo um futuro excelente para esta mulher) conta-nos a história de dois estrangeiros na cidade de Tóquio que, ao se conhecerem, formam um estranho (e perigoso?) laço que toma proporções inesperadas. Soa-vos à típica história de um romance? Se sim, desenganem-se. Antes de mais, este filme é sobretudo um estudo sobre o impacto da diferença de culturas provocado em cada um de nós, sobre a condição humana face a tais divergências e sobre a solidão que nos invade ao mudarmos para um país totalmente novo. Mas será só a diferença de culturas (e de línguas) que nos separa?


Para Charlotte (Scarlet Johansson), uma mulher na casa dos vinte, recém-casada, não. Além da sensação de exclusão, de isolamento, que demonstra sempre que passeia pela cidade ou que está em público, a jovem vê-se também no meio de um casamento em que a comunicação é difícil, devido às divergências entre ela e o marido, John (Giovanni Ribisi). Por isso, vêmo-la várias vezes sentada à janela, com o olhar distante na paisagem, mesmo quando conversa com ele. A futilidade por ele demonstrada (e uma boa dose de ignorância para com o estado da mulher) cria uma certa barreira entre os dois. Enquanto Charlotte se vê num país diferente, sem rumo na vida (há inclusivé uma cena em que ela ouve uma gravação sobre como encontrar o seu caminho), e sem ocupação (os seus são passados monotonamente no quarto de hotel), John apenas se interessa pelo trabalho e nele próprio.

Mas não é a única a experimentar este tipo de sentimentos. No mesmo hotel está hospedado Bob Harris (Bill Murray), um actor na casa dos cinquenta que veio até ao Japão com a intenção de gravar uma série de anúncios publicitários para a marca de uísque "Suntory". Bob tem um casamento com Lydia, casamento esse que dura já há 25 anos. A relação dos dois é, contudo, conturbada. Sempre que falam ao telefone, Bob ouve-a reclamar de alguma coisa ou a falar com um tom de indiferença. Despedem-se sempre com um frio "adeus" e podemos ver melhor como ambos se dão quando ele, numa conversa por telefone, tenta desabafar com ela. Ele, pode dizer-se, vive uma crise de meia-idade e podemos ver a sua frustração relativamente à carreira e à vida, por exemplo, na cena em que dois fãs o abordam num café e ele ouve penosamente os elogios deles a um dos seus filmes.

Ambos têm uma enorme necessidade de companhia, de alguém que os ouça e, consequentemente, os perceba. Isso é claramente mostrado na cena em que Charlotte tenta, a chorar, falar com uma amiga por telefone. A princípio, tenta esconder o seu descontentamento face à inadaptação ao novo país mas, depois, quando tenta contar à amiga um episódio que sucedeu um pouco antes, já não se poupa a detalhes. Contudo, do outro lado, a outra mal a ouve e Charlotte acaba mesmo por terminar a conversa, frustrada ao constatar que estava completamente isolada e perdida, não só naquele lugar mas também na própria vida. Ao contrário dela, Bob não se tenta adaptar à cultura daquele país e, apesar de chegar com a curiosidade típica de alguém que visita um determinado sítio pela primeira vez, mostra-se descontente e indignado pela distância que o separa dos que o rodeiam, ao ponto de querer sair dali o mais rapidamente possível. Quando os dois têm finalmente a oportunidade de se conhecerem e de falarem, depois de vários encontros completamente casuais (tanto que Charlotte nem se lembra da primeira vez que o viu), uma relação entre ambos começa a desenvolver-se com naturalidade pois, ao contrário do marido dela, Bob é uma companhia interessante, um homem culto e que, por partilhar a condição dela, a sabe ouvir e a compreende. Já Bob vê nela uma rapariga diferente, viva, com quem afastar a monotonia que preenche os seus dias.



De facto, Bob ganha um peso tal na vida dela que, quando o marido de Charlotte vai para fora uns dias, ela mal sente a sua falta - nessa altura, sabemos já que isso não se deve só ao facto de agora ter a companhia de Bob mas também porque anteriormente ela demonstrara, em várias ocasiões, o seu arrependimento relativamente ao casamento (chega mesmo a dizer, numa cena, que já não conhece o homem com quem casou). Assim, quando os dois começam a sair, a partilhar experiências e a conhecer-se melhor, compreendemos com relativa facilidade o porquê de procurarem a companhia um do outro.

Acredito que muita gente que viu este filme tenha ficado com reservas sobre como classificá-lo, pois não é exactamente uma comédia (apesar de ter momentos que proporcionam o riso), ou um romance (a cena que consuma a relação de Charlotte e Bob nem estava no argumento), ou um drama, mas sim um conjunto destes três elementos que, no fim, se juntam às boas actuações por parte dos actores, ao excelente argumento e à óptima visão da realizadora para criarem uma autêntica obra-prima. Existem tantas coisas a colher aqui sobre aquilo que nos distingue enquanto culturas (veja-se por exemplo a cena do talk-show) e sobre aquilo que somos enquanto humanos (seres com necessidade de afecto) que, simplesmente, fazem deste filme algo superior àqueles romances que se vê sem pensar muito no assunto. Ah, e o final deixa espaço para que a nossa mente possa divagar e imaginar o nosso próprio final.

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