quinta-feira, dezembro 27, 2007

Pecados Íntimos (livro & filme)

"Little Children" (ou "Pecados Íntimos", título português que a mim me parece muito melhor adequado à história e, por isso mesmo, se não se importarem, vou tratar o livro/filme por ele) foi um livro primeiramente lançado em 2004, do autor Tom Perrotta, que recebeu aplausos da crítica literária e se tornou um best-seller. Devo admitir que, se não fosse a adaptação para cinema, que estreou ano passado e que conta com Kate Winslet, Patrick Wilson e Jennifer Connelly nos papéis principais, muito provavelmente não pegaria sequer no livro. "Leia o livro, veja o filme." - esta frase começa a já ser comum nas capas das reedições de livros aquando da estreia da sua adaptação cinematográfica, mas a verdade é que esta foi a primeira vez que fiz as duas coisas. O resultado? É só continuarem a ler...!

Acreditem, é preciso muito para que um filme ou livro me consiga fazer torcer para que uma história romântica entre dois adúlteros (que sabem a condição de ambos desde o início) acabe bem. Foi por isso que, de início, quando lia o livro, estava um pouco reticente em relação ao que acharia da história. Comecei, contudo, a virar as páginas e a descobrir uma história rica, bem desenvolvida e estruturada, interessante, cativante e, acima de tudo, surpreendente. Foram precisos apenas alguns dias para o ler, e isso é algo bastante positivo num livro - também, não se alarmem, o livro tem cerca de 350 páginas, apenas.

Basicamente, aqui encontramos Sarah Pierce, uma mãe na casa dos trinta cuja vida passada entre a piscina municipal, o jardim-de-infância, os passeios ao final de tarde e a lida da casa há muito a deprime. Além de tudo isso, ela tem de aguentar a companhia de três outras mães, de nomes Mary Ann, Theresa (a que mais se assemelha a uma amiga, das três) e Cheryl, que não estão muito melhor que ela na vida - como vemos pelas suas conversas, todas estão "cansadas", sendo que nenhuma sente complexos em admitir que adormece durante o sexo, ou que está cansada do marido e um casamento à beira da ruína; Todd Adamson, por sua vez, é um homem de trinta e um anos que, por ter reprovado duas vezes no Exame de Ordem, se vê na posição que, para todos os efeitos, seria a sua mulher a ocupar: a de ficar em casa a tratar do seu filho, Aaron, enquanto estuda para a terceira tentativa em passar o tal Exame. Também ele se vê preso num casamento naufragado na monotonia do dia-a-dia, sendo que a sua mulher Kathy, realizadora de documentários, é, para ele, alguém distante e frio, alguém que rouba a atenção do filho para si, e que apenas serve para o lembrar do insucesso da sua vida profissional. Estas duas personagens são o casal à volta do qual outras várias se englobam, mas fiquem descansados os que pensam que esta é mais uma daquelas histórias lamechas sobre um casal que não consegue ficar junto: existe, à mistura, uma trama sobre um alegado pedófilo que chegou agora à cidade, Ronald James McGorvey, e vários outros dramas familiares que envolvem outras personagens - como o marido de Sarah ou Mary Ann - e que resgatam sempre a história da melancolia em que se podia instalar.

A certa altura, várias personagens estão a discutir sobre o livro "Madame Bovary" (uma cena muito interessante e irónica, pois os paralelismos com a realidade são muitos, a tal ponto de chegarmos a pensar se Mary Ann não dirige os seus argumentos a Sarah e não à protagonista do dito livro, uma adúltera convicta) e eis que Sarah diz, em prol de Emma Bovary: "A questão aqui não é a traição em si. É a necessidade de ter uma alternativa. A recusa da tristeza.", argumento esse que pode ser também utilizado em prol dela mesma. Este é apenas um dos exemplos que podemos utilizar para considerar "Pecados Íntimos" um livro de estudo de personagens, ora reparem nelas. A maioria - se não todas - está mergulhada no passado, presa a uma realidade alternativa. Tomem o caso de Larry, que vive perseguido por um incidente que acabou a sua carreira logo aos 30 e poucos, ou do pedófilo, que, a certa altura, em conversa com a mãe, admite que gostava de conseguir namorar mulheres da sua idade, mas que simplesmente não consegue. Há muito mais aqui do que uma simples história romântica.

Pessoalmente, adorei o livro. Começa muito bem, apesar de haver umas 20 ou 30 páginas lá para o meio que são um pouco paradas mas as últimas 100 páginas são realmente muito boas e conduzem a um final excelente, soberbo, brilhante, metafórico, realista, enfim, um final que me impressionou bastante pela sua imprevisibilidade e que termina o livro em grande. Recomendo (claro) a toda a gente, mas uma nota para os mais susceptíveis: o autor não se poupa a utilizar palavrões nos diálogos - ou mesmo na narração - e, se acham a palavra "preto" um insulto racista, então vão ser várias as vezes em que se vão chatear pois, como disse, o autor não tem complexos e encara a realidade de forma crua e verosímil, chegando mesmo a ser irónico de forma genuína no final, que, se escrito de outra forma, não seria a mesma coisa.

Filme


Falemos, então, do filme (achavam que me esquecia?!), que, como já disse, conta com actores excelentes no elenco principal e tinha tudo para ser uma fiel adaptação mas que, infelizmente, me desiludiu - e eu que ia com boas expectativas, pelas opiniões que já tinha ouvido! A história, pode dizer-se, é a mesma, pelo menos nos traços gerais. As personagens importantes estão quase todas lá, e a estrutura do enredo continua sólida e interessante, apesar de mais calma e arrastada. A primeira hora de filme, mais coisa menos coisa, está bem conseguida, tentando retratar, dentro de possível, aquilo que vimos no livro, com os maiores detalhes. Contudo, na segunda hora, é o descarrilamento total em direcção a um final hediondo, que nada tem a ver com o livro. É agora que peço a quem não queira saber detalhes cruciais da história que não leia o resto do texto. Foram avisados!

Foram várias as vezes que carreguei o botão "pause" do DVD para, por uns segundos, me questionar sobre o que via. São várias as coisas que me fizeram pensar, e que me aborreceram - para não dizer outra coisa. Por exemplo, como é que Kathy, no filme, é tratada quase como uma figurante, tendo apenas uma ou outra cena de destaque? No livro, a cena em que ela pergunta a Todd (ou Brad, no filme, não percebi o porquê de mudarem o nome dele ou o nome do local onde Ronald vive!) por Sarah é inesperada e contribui para o drama da história - aqui, não tem nem metade do efeito. E nem me façam falar do fim-de-semana que ela e Todd passaram na praia, que muito valeu à história e ajudou a fundamentar as acções futuras de Todd - não me esqueço daquela fala de Kathy, quando ela lhe pergunta se ele olha para Sarah como apenas um romance de Verão, que diz "Já agora, deixa-me dizer-te uma coisa. Caso ainda não tenhas reparado: o Verão está a acabar". Quanto ao drama pessoal da personagem de Larry com a mulher, podem esquecê-lo. À parte de uma menção numa conversa, a mulher dele não tem qualquer papel na história, por isso podem esquecer a cena da Igreja, por exemplo - e, com isto, muita carga emocional da história foi desperdiçada. Bertha, a melhor amiga da mãe de Ronald - May -, também foi eliminada. Não que a personagem tivesse uma importância de outro mundo, porque a história, ao contrário do que se passava no caso anterior, podia ser contada sem ela, mas é sempre estranho a ausência dela, especialmente na última parte do filme, onde ela ganhava um pouco de destaque na cena do hospital. Richard - o marido de Sarah - foi também desperdiçado pelo filme, ao ponto de que, na última parte, é completamente ignorado e deixa o final ainda mais vazio pois... que é feito dele? No livro, como sabem, ele parte para a Califórnia para um encontro do Clube de Fãs da Slutty Kay - esta foi uma boa storyline -, e liga a Sarah a dizer que o casamento deles está acabado. No filme nada disso acontece, pelo que, em relação à tal Kay - que, afinal, se chama Carla -, só a cena em que Sarah apanha o marido com as cuecas dela e a masturbar-se importa. Já em relação a Mary Ann, podem esquecer também a sua intervenção no final, já que o filme não se dá ao trabalho de gastar uns cinco minutinhos de forma a poder incluí-la - a cena com o marido, em casa, e posteriormente no parque infantil foi também esquecida. E que dizer do dia que Todd e Sarah passam na praia, enquanto ele se balda ao Exame? Aqui nem aparece, para choque meu. Pior: na contra-capa do DVD existe uma foto deles os dois na praia a beijar-se, levando-nos a pensar que a cena acontece, quando nem 1 minuto lhe é dedicado! Claro que, com isto tudo, ninguém podia esperar um final fiel ao do livro - se fosse, eu até perdoava um pouco a ausência de Bertha e o mau desenvolvimento das personagens de Richard e Kathy -, pelo que o resultado é, para quem adorou ler, desastroso e deturpado. Se havia um pequeno twist, no livro, na cena em que éramos levados a acreditar que Ronald ia atacar Sarah, aqui nada disso acontece, já que a cena foi incluída mas deturpada; por outro lado, Mary Ann foi eliminada, como já disse; Larry faz as pazes com Ronald, sim, mas nada com a mesma carga dramática como no livro; Sarah e a filha têm um final diferente também; em suma: nada da união entre ex-polícia, adúltera, pedófilo e bisbilhoteira, numa roda a fumar, em perfeita harmonia, como no livro, e lá se foi a metáfora que tanto apreciei - já para não falar que o final trata a relação de Sarah e Todd (ou Brad) como se não fosse mais que uma sub-narrativa, o que é chocante. Por outro lado, o filme acrescenta uma cena em que somos levados a acreditar que Jean tomou conhecimento do caso entre Sarah e Todd para depois não lhe dar desenvolvimento. Confesso que fico a pensar qual a sua utilidade, já que, no livro, nada de vagamente semelhante acontece, e só nos leva a criar uma antipatia para com Jean.


Contudo, o filme tem coisas boas. Ver Kate Winslet e Jennifer Connelly, duas das minhas actrizes favoritas, juntas no ecrã é sempre algo muito bom, por exemplo; a realização é boa, e conta com bons detalhes - vejam a cena na piscina que retrata o passar do tempo; a história continua concisa e com lógica na sua estrutura, mas mais pobre; a cena do encontro entre Sheila e Ronald está mais chocante aqui. Porém, no final, sabe a pouco, e o pouco que é, desilude. O filme ainda tenta criar tensão, desnecessariamente, no fim, ao fazer a filha de Sarah - inexplicavelmente -desaparecer por momentos, mas isso não chega. Não vou ter a presunção de dizer o que devia ficar e o que devia ser retirado do filme, apenas digo que não me importava que ele fosse vinte minutos mais longo, desde que incluísse muita coisa que foi descartada. E isso, sim, talvez o elevasse ao nível do livro.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

"Orgulho e Preconceito", Jane Austen



Com uma edição de bolso de apenas 278 páginas, numa edição - com imperfeições - da Europa-América, mentiria se a dissesse que a sua pequenez não me cativou pois, apesar de não ser um requisito indispensável, o tamanho de um livro é, para mim, um factor a ter em conta - pelo que não advinho horas muito prazerosas diante das cerca de 800 páginas d'"Os Mais", livro que terei, obrigatoriamente, de ler para a disciplina de Língua Portuguesa -, já que nem sempre existe disponibilidade para a leitura. Porém, como começava agora as férias, senti que tinha tempo suficiente e o livro revelou-se de tal forma interessante que o acabei em cinco dias.

Bem, mas o que dizer sobre a obra? Antes de mais, quero falar das características que me levam a considerá-la um romance histórico e que são fáceis de adivinhar: o grau com que nos são retratadas as paisagens, quer urbanas, quer rurais e a forma como nos é descrita a forma de pensar e agir da sociedade de então, esta última originando, indirectamente, o título do livro pois, ao longo da história, é-nos muito falado do orgulho dos privilegiados e do seu preconceito em relação às classes inferiores a si. Ficamos, então, de forma geralmente irónica, a saber como a sociedade se regia no início do século XIX, data em que este livro é publicado pela primeira vez, coisa que me agradou.

Quanto à escrita, como já salientei, é muito boa. Sempre atenta aos detalhes, mas sem aborrecer, a escritora não perde tempo e, a cada capítulo, existem sempre novas situações a acontecerem. Devo, contudo, denunciar a forma rotineira como grande parte da história se passa pois, se por um lado nos mostra quais eram os divertimentos das diferentes classes, por outro começa a ser previsível ao ponto de sabermos que, ao final de um capítulo, um novo jantar, almoço, baile ou qualquer cerimónia do género será planeado. É por isso que, tendo consciência desse mesmo aspecto da história, Austen astutamente introduz, com grande regularidade, novas e diversificadas personagens na história, evitando assim a repetição que se poderia, a alguma altura, instalar e tornar a leitura enfadonha. Se bem que também essa ideia acaba por ter uma outra face pois, um pouco mais à frente na história, chega a ser confuso lembrar os laços que unem as muitas personagens e as relações entre si.

Em relação à história, o romance apresenta-se com o mote de que "é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa" e alonga-se pelas suas quase três centenas de páginas a dar-lhe uma conclusão. Não vos querendo estragar muito a experiência, o enredo começa com a chegada de um jovem rico - o Sr. Bingley - à vizinhança, e somos levados a crer que será ele o par amoroso da protagonista Elizabeth Bennet, a segunda de cinco irmãs, coisa que não se sucede, pormenor que apreciei pois foi um bom... twist, digamos, para a história já que seria um cliché se assim fosse. As peripécias que se vão sucedendo à volta das duas famílias principais - Bennet e Bingley, precisamente - são muitas e quase sempre muito interessantes, apesar de, claro, haver aquele aspecto rotineiro da história. Bem construída, a narrativa oscila entre o drama e o romance, mas sempre com um toque de comédia lá para o meio, pelo que são várias as vezes que nos enternecemos e que torcemos pelas personagens, bem como são muitos os momentos em que nos rimos com elas - e, neste campo, nada me fez mais rir que a dinâmica da relação dos pais de Elizabeth. Só tenho é a lamentar a forma como algumas personagens são descartadas da história, como por exemplo Mary, uma das irmãs de Elizabeth, que, comparada com algumas das outras, é quase uma figurante ao longo de toda a história, e nunca tem oportunidade de se afastar da unidimensionalidade que a caracteriza.

Se, ao fim de umas meras vinte páginas, este livro já se candidatava a ser um dos meus favoritos, quando o fechei pela última vez foi com a certeza de que era o meu favorito - não sou uma pessoa com uma lista de livros lidos infinita, mas já li alguns autores e posso dizer que, perante a monumentalidade deste livro, um "As Palavras Que Nunca Te Direi", de Nicholas Sparks, empalide, quer pelo seu cariz melodramático, quer pela sua natureza fútil, por completo - tanto que, passados quase 200 anos, ainda há pessoas a ler um, enquanto que duvido que o mesmo aconteça com o segundo. Há qualquer coisa na história, aliás, há muita coisa, que nos faz olhar para "Orgulho e Preconceito" com outros olhos, e não há como não sentir uma certa nostalgia perante o espaço temporal retratado.
Diria que é de fácil leitura, e só tenho mesmo a queixar-me da teatralidade inicial dos diálogos. Li as últimas 170 páginas durante o dia de hoje e, sendo eu um leitor casual, que farão os que estão mais habituados! Acho que agradará a quem procure uma boa história romântica, mas não "lamechas" Quanto a mim, falta ver o filme.


P.S.: Obrigado, Isabel, por mo recomendares!

domingo, novembro 18, 2007

Alguém tem que Ceder


Provavelmente, a comédia do ano de 2003, ano esse que se apresentou produtivo não só no campo do cinema (dentro deste género, encontramos bons filmes como o extremamente popular "Love Actually" ("O Amor Acontece"), com a actriz portuguesa Lúcia Moniz, e também o "Lost In Translation", ao qual já fiz crítica aqui, "Something's Gotta Give" (ou "Alguém Tem Que Ceder") junta dois titãs da História Cinematográfica, Jack Nicholson e Diane Keaton numa história que tem tanto de divertida como enternecedora. Vejam o meu veredicto sobre este filme da realizadora de "The Holiday" ("O Amor Não Tira Férias", 9.5/10), Nancy Myers.


Decerto que a "Twentieth Century Fox" se deve ter arrependido por recusar fazer este filme devido à idade dos seus protagonistas (na altura, Nicholson tinha 63 e Keaton tinha 57), após ver o seu resultado e a nomeação de Keaton para um Óscar. É engraçado que este tenha sido o motivo da declinação, já que é, a meu ver, um dos pontos fortes do filme: fazer-nos acreditar que, mesmo já passadas três estações da vida, ainda podemos encontrar o amor verdadeiro, que ainda há esperanças.
É aqui também que encontramos a primeira diferença desta comédia romântica em relação a muitas outras lançadas todos os anos pois quantos filmes contam uma história de amor entre dois seniores?



Falemos, então, da história do filme. Harry Sanborn (Nicholson), dono da editora de hip-hop "Drive-By Records" é um homem sucedido que, apesar da idade, nunca casou e que procura prazer junto de mulheres substancialmente mais novas. É assim que ele conhece Marin (Amanda Peet), uma mulher na casa dos 20 anos que o convida a passar o fim-de-semana na casa-de-praia da mãe, Erica Barry (Diane Keaton), uma dramaturga famosa e que está no começo de uma nova peça (que, mais tarde, se revelará um espelho do romance dela com Harry). Nessa noite, quando Harry e Marin se preparam para ter relações sexuais, ele tem um ataque cardíaco e, tendo que ficar a descansar uns dias na casa delas (onde está, também, Zoe, irmã de Erica, vivida por Frances McDormand), a história arranca então definitivamente.



O grande trunfo deste filme é a interacção entre as personagens, que geram diálogos muito divertidos e inteligentes. Erica e Zoe, por exemplo, revelam sempre uma boa química em cena, como se duas irmãs se tratassem, pena a segunda aparecer pouco; por outro lado, os diálogos entre Harry e o seu médico, Julian (vivido por Keanu Reeves) são muitas vezes denotados pela ironia dos acontecimentos - reparem, por exemplo, na cena em que Harry lhe diz que consegue já "subir um lance de escadas". Já os protagonistas, se na primeira parte do filme nos conseguem divertir com as suas provocações mútuos, conseguem também mostrar-se como um par amoroso que convence, depois.
Além disso, convém também salientar os temas das conversas, que muitas vezes são reflexões da nossa finitude como seres vivos, antíteses observadas no comportamento da sociedade, entre outras.



Penso que, assim como muitos diriam que as comédias românticas têm como público-alvo as mulheres, também muitos outros diriam que este filme é irrealista no sentido de que Erica, nos seus 50-quase-60, conseguiria atrair e viver uma relação amorosa com um homem da idade de Julian, por exemplo e se, no segundo ponto, tenho de concordar até certo ponto, no primeiro discordo e muito pois aqui podemos encontrar duas horas que conjugam agradavelmente romance e comédia que cumprem o seu objectivo de nos colocar um sorriso na cara durante (e após) toda a película.



No fim, se me perguntassem se recomendo este filme, eu responderia que sim. Todos gostamos de acreditar que, mesmo envelhecidos, algumas coisas nunca mudarão. Pois bem, este filme certamente vai mudar a vossa opinião caso acreditem que, a partir de uma certa idade, se estiverem sozinhos, terão que se preparar para "encostar às boxes". Eu, pelo menos, gosto de acreditar na mensagem do filme. Bem escrito e realizado, apesar de algumas partes desnecessárias, "Something's Gotta Give" é mais um daqueles filmes para ser numa tarde chuvosa de Inverno (ou, se preferirem, façam aquilo que Harry e Erica fizeram, talvez seja mais interessante), ou numa altura em que precisamos de ser animados. Se assim for, cumpre a sua função. Além disso, graças aos bons actores que foram escolhidos, elevam-no a um patamar acima do típico-filme-de-Domingo-à-tarde. Pena o final um pouco forçado, se não teria levado uma melhor nota minha.
Vejam, sem dúvida que entra para a minha lista de favoritos.

Citações Memoráveis:


Harry: Will you cut me a little slack? My life has just been turned upside down.
Erica: Mine too!
Harry: Well, then let's just each get our bearings.
Erica: I don't want my bearings. I've had my bearings my whole goddamn life. I feel something with you I never really knew existed. Do you know what that's like, after a 20-year marriage to feel something for another person that is so...? That... Oh, Right. Right. Not your problem. God. Do you know that I've written this, but I never really got it? Do you know what this is?
Harry: No.
Erica: [Erica kisses Harry] This is heartbroken. How's that for impervious.

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Harry: I have never lied to you, I have always told you some version of the truth.
Erica: The truth doesn't have versions, okay?

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Harry: Erica, you are a woman to love.

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Julian Mercer: How great is it for you that im not intimidated by your brilliance?

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Harry: I've never seen a woman her age naked before.
Julian Mercer: You're kidding.
Harry: Hey! We're not all doctors, baby.

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Zoe: This is really fascinating, what's going on at this table. Let's take you and Erica. You've been around the block a few times. What are you, around 60? 63. Fantastic! Never married, which as we know, if you were a woman, would be a curse. You'd be an old maid, a spinster. Blah, blah, blah. So instead of pitying you, they write an article about you. Celebrate your never marrying. You're elusive and ungetable, a real catch. Then, there's my gorgeous sister here. Look at her. She is so accomplished. Most successful female playwright since who? Lillian Hellmann? She's over 50, divorced, and she sits in night after night after night because available guys her age want something-forgive me, they want somebody that looks like Marin. The over-50 dating scene is geared towards men leaving older women out. And as a result, the women become more and more productive and therefore, more and more interesting. Which, in turn, makes them even less desirable because as we all know, men- especially older men- are threatened and afraid of productive, interesting women. It is just so clear! Single older women as a demographic are about as fucked a group as can ever exist.

sábado, setembro 29, 2007

Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho

Este é mais um daqueles exemplos em que, para compreendermos da melhor forma todos os detalhes que compõem a história que o filme quer contar, precisamos de assistir ao filme mais que uma vez. Não por falta de inteligência ou de atenção, simplesmente porque existe ali tanta coisa, tantas metáforas (visuais e não só) e tanta coisa que nos faz pensar que só à segunda (ou à terceira, quem sabe?) o compreendemos verdadeira e completamente. Mas será "Lost in Translation" um daqueles casos que podem ser considerados como sendo "clássicos instantâneos"?
Bem, por onde começar?! Há aqui tanto a ser dito que nem sei por onde começar. Ora, o argumento, em primeiro lugar. Original e extremamente bem-escrito pela realizadora e co-produtora do filme Sofia Coppola (memorizem o nome, prevejo um futuro excelente para esta mulher) conta-nos a história de dois estrangeiros na cidade de Tóquio que, ao se conhecerem, formam um estranho (e perigoso?) laço que toma proporções inesperadas. Soa-vos à típica história de um romance? Se sim, desenganem-se. Antes de mais, este filme é sobretudo um estudo sobre o impacto da diferença de culturas provocado em cada um de nós, sobre a condição humana face a tais divergências e sobre a solidão que nos invade ao mudarmos para um país totalmente novo. Mas será só a diferença de culturas (e de línguas) que nos separa?


Para Charlotte (Scarlet Johansson), uma mulher na casa dos vinte, recém-casada, não. Além da sensação de exclusão, de isolamento, que demonstra sempre que passeia pela cidade ou que está em público, a jovem vê-se também no meio de um casamento em que a comunicação é difícil, devido às divergências entre ela e o marido, John (Giovanni Ribisi). Por isso, vêmo-la várias vezes sentada à janela, com o olhar distante na paisagem, mesmo quando conversa com ele. A futilidade por ele demonstrada (e uma boa dose de ignorância para com o estado da mulher) cria uma certa barreira entre os dois. Enquanto Charlotte se vê num país diferente, sem rumo na vida (há inclusivé uma cena em que ela ouve uma gravação sobre como encontrar o seu caminho), e sem ocupação (os seus são passados monotonamente no quarto de hotel), John apenas se interessa pelo trabalho e nele próprio.

Mas não é a única a experimentar este tipo de sentimentos. No mesmo hotel está hospedado Bob Harris (Bill Murray), um actor na casa dos cinquenta que veio até ao Japão com a intenção de gravar uma série de anúncios publicitários para a marca de uísque "Suntory". Bob tem um casamento com Lydia, casamento esse que dura já há 25 anos. A relação dos dois é, contudo, conturbada. Sempre que falam ao telefone, Bob ouve-a reclamar de alguma coisa ou a falar com um tom de indiferença. Despedem-se sempre com um frio "adeus" e podemos ver melhor como ambos se dão quando ele, numa conversa por telefone, tenta desabafar com ela. Ele, pode dizer-se, vive uma crise de meia-idade e podemos ver a sua frustração relativamente à carreira e à vida, por exemplo, na cena em que dois fãs o abordam num café e ele ouve penosamente os elogios deles a um dos seus filmes.

Ambos têm uma enorme necessidade de companhia, de alguém que os ouça e, consequentemente, os perceba. Isso é claramente mostrado na cena em que Charlotte tenta, a chorar, falar com uma amiga por telefone. A princípio, tenta esconder o seu descontentamento face à inadaptação ao novo país mas, depois, quando tenta contar à amiga um episódio que sucedeu um pouco antes, já não se poupa a detalhes. Contudo, do outro lado, a outra mal a ouve e Charlotte acaba mesmo por terminar a conversa, frustrada ao constatar que estava completamente isolada e perdida, não só naquele lugar mas também na própria vida. Ao contrário dela, Bob não se tenta adaptar à cultura daquele país e, apesar de chegar com a curiosidade típica de alguém que visita um determinado sítio pela primeira vez, mostra-se descontente e indignado pela distância que o separa dos que o rodeiam, ao ponto de querer sair dali o mais rapidamente possível. Quando os dois têm finalmente a oportunidade de se conhecerem e de falarem, depois de vários encontros completamente casuais (tanto que Charlotte nem se lembra da primeira vez que o viu), uma relação entre ambos começa a desenvolver-se com naturalidade pois, ao contrário do marido dela, Bob é uma companhia interessante, um homem culto e que, por partilhar a condição dela, a sabe ouvir e a compreende. Já Bob vê nela uma rapariga diferente, viva, com quem afastar a monotonia que preenche os seus dias.



De facto, Bob ganha um peso tal na vida dela que, quando o marido de Charlotte vai para fora uns dias, ela mal sente a sua falta - nessa altura, sabemos já que isso não se deve só ao facto de agora ter a companhia de Bob mas também porque anteriormente ela demonstrara, em várias ocasiões, o seu arrependimento relativamente ao casamento (chega mesmo a dizer, numa cena, que já não conhece o homem com quem casou). Assim, quando os dois começam a sair, a partilhar experiências e a conhecer-se melhor, compreendemos com relativa facilidade o porquê de procurarem a companhia um do outro.

Acredito que muita gente que viu este filme tenha ficado com reservas sobre como classificá-lo, pois não é exactamente uma comédia (apesar de ter momentos que proporcionam o riso), ou um romance (a cena que consuma a relação de Charlotte e Bob nem estava no argumento), ou um drama, mas sim um conjunto destes três elementos que, no fim, se juntam às boas actuações por parte dos actores, ao excelente argumento e à óptima visão da realizadora para criarem uma autêntica obra-prima. Existem tantas coisas a colher aqui sobre aquilo que nos distingue enquanto culturas (veja-se por exemplo a cena do talk-show) e sobre aquilo que somos enquanto humanos (seres com necessidade de afecto) que, simplesmente, fazem deste filme algo superior àqueles romances que se vê sem pensar muito no assunto. Ah, e o final deixa espaço para que a nossa mente possa divagar e imaginar o nosso próprio final.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Hostel 2

Em 2005, todos os olhos estavam postos num filme de terror chamado "Hostel", que era promovido como um dos melhores da década. Choviam os relatos de pessoas que desmaiaram enquanto assistiam a filme. E, com Quentin Tarantino a apoiar o projecto... que resultado imaginavam? Exacto, um dos filmes que gerou mais hype ultimamente e que, apesar de não estar à altura do que se ouvia, me agradou. Agora, dois anos depois, já sem o efeito novidade e com uma premissa bastante semelhante à do anterior, chega-nos "Hostel: Parte 2". A questão era: seria esta uma boa sequela ou apenas uma tentativa de lucrar no sucesso do primeiro?

Em primeiro lugar, a história do filme (que mais parecia uma cópia do primeiro, com a excepção de agora, em vez de rapazes, serem raparigas) gira à volta de três estudantes de arte (Beth, a sua amiga promiscua Whitney e a extremamente-doce-e-simpática-que-chega-a-ser-irritante Lorna, interpretadas por Lauren German, Bijou Phillips e Heather Martarazzo, respectivamente) que partem para a Eslováquia à procura de descanso num Spa e de outras duas personagens, Todd e Stuart (interpretados por Richard Burgi e Roger Bart), dois homens que se iniciam na já conhecida "Elite Hunting" e se preparam para a primeira sessão de tortura. Como vêem, desta vez temos não só a perspectiva das vítimas mas de também dos também de quem tortura, o que, além de trazer diversidade, nos mostra mais aprofundadamente como se dão as coisas nos bastidores, antes das sessões de sadismo que acontecem mais tarde no filme. E a história (ou, pelo menos, a primeira parte) está bem melhor que no primeiro, pois temos oportunidade de ver o destino de Paxton (único sobrevivente de "Hostel), mas também de ver as mudanças que ocorreram na organização e na "fábrica" da morta - como consequência da fuga de duas vítimas, a segurança tornou-se agora muito mais complexa e sofisticada, por exemplo - e de acompanhar personagens mais variadas, ao contrário do antecessor, em que na primeira parte éramos bombardeados com cenas de sexo descartáveis e excessivas. Quando, finalmente, as nossas amigas chegam ao destino e o terror realmente começa, as coisas mudam de panorama (não só para o tom da história como para a sua qualidade).



Depois de uma primeira parte algo arrastada, o filme lá chega à parte que a todos interessa: as cenas de terror/tortura. No objectivo - muito por culpa da forma como são filmadas. Existe uma cena sobre canibalismo que, da forma como foi filmada, é provável que em vez de ficarem boquiabertos com o que estão a ver, se riam. E isso não é muito bom num filme destes. Quanto às cenas de tortura em si, não são tão abundantes ou longas como no primeiro e somente uma se destaca daquilo a argumento, existem cenas que foram escritas claramente para chocar. Contudo, na prática, nem todas cumprem o seu que já fomos habituados - não só pelo valor dramático da cena, pois, quando acontece, já temos empatia pela personagem, mas pela criatividade. É uma cena perturbadora, nojenta e visceral. Quanto ao resto, uma delas é curtíssima e não temos sequer o privilégio de ver o desfecho (porém, é também eficiente) e as outras não são nada de grandioso. Porém, nesta segunda incursão, existem outras cenas que contrabalançam a fraca abundância das torturas, ao contrário do primeiro.

Eli Roth, o realizador, parece ter percebido que um filme de terror gira também à volta do suspense e, desta vez, temos algumas cenas de perseguição que antecedem o matadouro humano. Destaco aqui aquela que se inicia na lagoa (a forma como foi editada leva-nos a crer que é um sonho).



Mas, no fundo, a pergunta que fica no ar é: consegue o filme atingir os seus objectivos? A minha resposta é sim, mas com falhas. As torturas mostram a natureza humana no seu estado mais obscuro e sádico, mas existem outras cenas de igual valor: note-se, por exemplo,aquela em que vemos várias pessoas espalhadas pelo mundo a participar no leilão humano: entre elas, vemos um avô num parque de diversões a sorrir para o neto enquanto tenta ganhar a oportunidade de torturar alguém. Isto sim, perturba, e penso que serve como fio condutor de uma das mensagens mais importantes do filme: não importa o quão normais aparentemos ser, há sempre aquele lado mais negro em todos (como podemos ver no IMDb, onde existem tópicos do género "Como matariam alguém?") e os membros da Elite Hunting podem ser quaisquer uns.
Existe depois também uma cena em que uma das personagens principais é preparada para um cliente e que é igualmente sinistra.



Como um todo, o filme é bastante sólido. Existe uma melhor história (apesar do final não chegar ao nível dos excelentes últimos minutos do primeiro), com actores mais conhecidos e com muita coisa para agradar aos fãs do género. Porém, esta segunda viagem fica a perder devido a negligenciar algumas partes da história (não ficamos a saber como uma personagem é capturada ou como certa personagem fica completamente sozinha no Spa, depois de adormecer na lagoa) e também pelo horrível final que, além de cómico, soa irreal e forçado. Adicionem a isso o facto da personagem sobrevivente do primeiro (Paxton) ser descartada logo no início e não fica bem aquilo que esperávamos. Não é tão bom como o primeiro mas é sem dúvida um bom filme, apesar de ter falhas que poderiam muito bem ser colmatadas com uma revisão do argumento ou com uma edição mais rigorosa. E o humor negro aqui não ajuda em nada. O filme não foi tão bem sucedido como o primeiro pelo que, possivelmente, é a última vez que visitamos aquele lugar - o que não é totalmente negativo.

domingo, setembro 23, 2007

:Má Educação



Numa altura em que a RTP aposta em patentear filmes de grande sucesso (como foi com "O Segredo de Brokeback Mountain"), foi ontem exibido o que considero ser o melhor filme de Pedro Almodóvar, "Má Educação", com o meu actor preferido, Gael García Bernal. Saibam a minha opinião, a seguir.

Dizem muitos ser esta película autobiográfica, baseada na infância de Almodóvar, e se for, acho que todos os elementos estão presentes para ver como o realizador espanhol bem mostrou a construção de um filme ajustado da vida real. Vencedor de inúmeros prémios, o filme tornou-se um fenómeno cultural, gerando imensa polémica no ano em que saiu (2004). O argumento do filme é, tenho de admitir, um dos mais complexos com que me deparei, pois a ficção e a realidade são misturadas, mas extraordinariamente chegamos ao fim com as dúvidas todas respondidas.
Espanha, anos 60. Ignacio e Enrique são dois rapazes que descobrem o amor um pelo outro num colégio religioso. No entanto, as suas vidas são separadas e o seu amor interrompido. 20 anos depois, Ignacio, agora actor, entra no escritório de Enrique, cineasta, com um argumento que conta a história dos dois…
Esta foi uma sinopse muito compreendida do que realmente é "Má Educação". Uma personagem não menos importante como o padre Manola (Giménez Cacho) juntou os ingredientes certos na sua personagem para que esta fosse a que mais polémica tivesse. A pedofilia está presente de uma maneira verdadeiramente arrepiante. Pelo amor surreal presente num triângulo de homens, não tenho a certeza se posso distinguir o filme como sendo apenas dramático. Gael García Bernal, depois de Amor Cão (de Inãrritu) e O Crime do Padre Amaro, trouxe consigo mais uma personagem que nunca iremos esquecer. Um aspecto importante a notar é a banda sonora, composta por Alberto Iglesias, que escreveu músicas que emocionam, pela posição que tomam ao longo de cenas índescritivelmente emocionantes. Nesta história, todas as personagens são os culpados das suas desditas, todos guardam e partilham segredos que ainda nos chocam pela sua densidade emocional e psicológica. É imperdível, um dos melhores filmes contemporâneos.
9/10

terça-feira, agosto 28, 2007

:“Vincent”, de Tim Burton


Nesta fantástica curta-metragem de 1982 que o Miufa me deu a conhecer, vemos a história de Vincent Malloy, um rapaz que, apesar de se mostrar agradável, esconde um enorme desejo de ser Vincent Price, o actor de filmes de terror. (For a boy his age he’s considerate and nice, But he wants to be just like Vincent Price.) Sonha com o momento em que os seus tenebrosos anseios se realizem. (There he could reflect on the horrors he’s invented, And wander dark hallways alone and tormented.) Com um argumento escrito de uma forma poética, o final reflecte a personalidade da personagem, que lê Edgar Allan Poe, citando “O Corvo”. (“And my soul from out that shadow floating on the floor, Shall be lifted – Nevermore!”) O melodrama com que o próprio Vincent Price narra a curta-metragem é, a meu ver, genial, transpondo cada sentimento para o espectador. (The room started to sway, to shiver and creak. His horrid insanity had reached its peak.) Tim Burton, de filmes como “Eduardo Mãos de Tesoura”, ou “A Noiva Cadáver”, fez novamente um sublime trabalho, com “Vincent”, que merece ser revisto vezes sem conta.

quinta-feira, agosto 02, 2007

:The Simpsons Movie (2007) - Crítica

Não imaginam a minha aflição quando soube que, como tinha faltado ao encontro de fim-de-semana dos meus amigos por estar em Viseu, eles tinham ido ver o filme dos “Simpsons”. Eles que confirmem: mal soube, berrei a valer com eles, disse coisas que não devia, quase não me pus a chorar. E tudo por causa do filme. No entanto, para me compensar, a Sandra aceitou ir comigo ver o filme ontem, para meu contentamento. Como devem saber, a Sandra é uma das minhas melhores amigas e falar com ela é um grande prazer, sobretudo quando nos encontrarmos. Fez o favor de ir ver o filme pela segunda vez, no caso dela, e não podia ficar mais contente. Sou, se calhar, um dos maiores fãs dos Simpsons que por aí anda, e já devem imaginar a minha ansiedade para ir ver o filme.
Quando entrei na sala, o filme já estava a começar, a sala estava cheia e fui obrigado a ir para as filas da frente, o que não estragou muito. A emoção para ver era maior.
Ri-me todos os minutos: mesmo quando não havia piada na cena ria-me da cara da personagem, o que incomodou algumas pessoas quando estávamos a meio de uma cena emocionante com a Marge. No filme, haviam quatro cenas que envolvia o tema gay, e as pessoas podiam-me ouvir rir alto quando elas vinham à baila. Houve inclusive uma cena que era de dois polícias que se punham a beijar, que a Sandra virou-se para mim e disse “quando vi os polícias lembrei-me logo de ti, na primeira vez que vi o filme”. Não incomodou em nada a afirmação dela, a cena estava engraçada demais. Ri-me dos Green Day com a sua cena alusiva ao filme “Titanic”, Bart nu, do Flanders, do Nelson (“Ah, ah”), do Porco-Aranha (só de escrever, rio-me), de todos. Mas principalmente, do Homer. Quer ele falasse ou não, quer ele fizesse alguma asneira ou não, lá estava eu a rir-me dele.
A história está muito apelativa, a música está fantástica (admiro bastante o Hans Zimmer, por compor principalmente a linda banda-sonora d’ “O Amor Não Tira Férias”), as personagens estão bem conseguidas, e as piadas, inesquecíveis.
Não posso dar maior conselho, saiam de casa e vão ver este filme enquanto têm tempo.

Aspectos positivos: Para não dizer tudo… realização, argumento, personagens, música, imagem.
Aspectos negativos: O filme podia ser maior…

Nota: 9/10

segunda-feira, junho 18, 2007

:Elfen Lied

"Elfen Lied" é o nome de uma série de anime de 13 episódios que me foi aconselhada pelo Miufa, versando a história de uma possível evolução da humanidade. Nunca me interessei em começar ver a sério uma animação japonesa, mas a verdade que agora que estou quase no final desta série, devo dizer que fiquei apaixonado. Apaixonado pela beleza artística de qualidade suprema nos desenhos e pelas personagens e história envolventes que nos fazem rever a sociedade em que vivemos e até um pouco do nosso interior.
Conta-nos a história de uma evolução da humanidade, seres chamados Diclonius. São humanos aparentemente normais, mas que nasceram com chifres, e uma habilidade especial chamada de Vectors. Por isso, são socialmente excluídos e são alvo de um forte preconceito. As crianças sofridas, vão alimentando um ódio pelos humanos por estes as terem rejeitado e assim, vão matando sem piedade todos os que se lhes aproximam. A história começa quando uma Diclonius chamada Lucy foge de um centro de pesquisas situado numa ilha, fortemente protegido por uma força armada. Escapa matando todos os que a confrontaram porém, cai ao mar quando um atirador a atinge no seu capacete.
Entretanto, o jovem Kouta encontra-se com a prima Yuka na praia, com o objectivo de recordarem o seu passado. Deparam-se assim com uma jovem nua no mar que apenas sabe dizer "nyuu". É Lucy, que perdeu a memória. Kouta e Yuka apelidam-na por Nyuu e levam-na para a casa de Kouta, uma antiga pensão abandonada que ele tem de guardar.
Em contrapartida, o centro de pesquisas desespera para encontrar Lucy e envia assassinos profissionais e outras Diclonius procura-la com o objectivo de matá-la. No entanto, a série traz-nos imensas reviravoltas e histórias secundárias, que torna "Elfen Lied" numa história extremamente viciante e emocionante. A série acompanha também inúmeras influências artísticas, baseadas em passagens bíblicas e arte simbólica.
São assim tratados temas como a rejeição, o egoísmo, a vingança, a diferença, bullying, a inocência da infância e, até, o abuso sexual em menores. O lado mais cruel do Homem. Por juntar cenas como o erotismo, nudez, terror e violência, a anime não é aconselhável a menores nem a pessoas sensíveis.
Desengane-se quem pensa que as animes não pudessem ser tão emocionantes e cativantes. Que venham mais!

terça-feira, junho 05, 2007

:Babel (2006) - Crítica

Foi um dos meus presentes de aniversário, um DVD que já há muito aguardava, "Babel" chega encerrando a trilogia do realizador de "Amor Cão" e "21 Gramas". Nunca tinha feito a minha crítica, mas realmente o filme é imperdível, com um elenco formidável e uma história bastante interessante. Ganhou o prémio de melhor realizador no Festival de Cannes e ainda o globo de ouro de melhor filme.
A sinopse: Nas areias longínquas do deserto Marroquino, um tiro de espingarda desencadeia uma série de acontecimentos que ligam um casal de turistas americano, numa luta frenética para sobreviver, dois rapazes marroquinos envolvidos num crime acidental, uma ama atravessando ilegalmente a fronteira para o México com duas crianças americanas e um pai de uma adolescente japonesa procurado pela policia em Tóquio. Separados por choques culturais e distâncias desiguais, cada um destes quatro grupos distintos, mesmo assim, avança tumultuosamente para um destino compartilhado de isolamento e de dor.
Não ganhou nenhum Óscar considerável sem ser a sua banda-sonora excepcional, de Gustavo Santaolalla (de "Brokeback Mountain"). O elenco, repito, está fantástico. O famoso Brad Pitt com uma óptima representação da sua personagem, a querida Cate Blachett, o talentoso (e bonito!) actor mexicano Gael García Bernal ("La Mala Education"). Não que todo o elenco secundário não contasse, 99% das personagens do filme nunca tinham visto uma câmara de filmar à sua frente.
O argumento, muito original e realista, o que torna quase impossível não nos revermos numa das personagens. Muito ao estilo de "Colisão", um dos meus filmes favoritos. Como é que não ganhou o Óscar de melhor filme?!
"Babel" mostra-nos nada mais, nada menos, do que o problema da comunicação entre as culturas, conectadas por pequenos detalhes que se podem tornar em elos de ligação com consequências impensáveis à partida. O problema não está apenas pela diferente língua, as diferentes pessoas têm que obedecer a determinados conceitos éticos e burocráticos, o que torna o ser humano, que tão igual diz-se ser, na mais estranha e desigual espécie viva.

Aspectos Positivos: Realização, Fotografia, Elenco, Argumento, Música

Aspectos Negativos: Nada a apontar.

Nota: 9,5/10

"If You Want to be Understood... Listen"

terça-feira, maio 01, 2007

:Hard Candy (2005) - Crítica

David Slade, notável realizador do filme "Do Geese See God?", chegou-nos com este fantástico "Hard Candy". A película estreou-se no ano passado em Portugal mas só há dias atrás é que pude ver. Nesta postagem justificarei o porquê de não poderem perder este filme, se ainda não viram. Vejam o trailer aqui.

Hayley (Ellen Page) é uma rapariga de catorze anos que marca um encontro pela Internet com um fotógrafo chamado Jeff (Patrick Wilson). Claramente agradados com a aparência de um e de outro, Hayley acompanha o fotógrafo para a sua casa. Onde na visão comum da nossa sociedade temos a resposta para quem é o mau da fita, no momento que Hayley amarra Jeff e tortura-o de forma vingativa, o filme leva-nos a debater a pedofilia e o consentimento por parte das “vítimas”.

Durante mais de uma hora, o realizador de “Hard Candy” ousou limitar o filme a um cenário e a duas personagens. Duas personagens que, tenho de admitir, são representadas por fabulosos – e quando digo isto, digo-o a sério – actores, Ellen Page (a grande revelação do ano) e Patrick Wilson (conhecido pela boa interpretação em “Anjos na América”). Essa audácia foi de certo uma mais-valia, porque os espectadores vêem-se de tal forma envolvidos na narrativa que, de uma certa maneira, a tensa e alucinante experiência das personagens, torna-se a nossa.

Li “perfeccionismo estético” algures, sobre o filme, e devo concordar em pleno. “Hard Candy” mostra-nos em algumas cenas, excelentes planos com uma admirável fotografia, proporcionando-nos bons momentos de impressionante impacto visual, como que a beleza do panorama fosse tão importante como o argumento. Apesar de tudo, o elemento surpresa não deixou de ser um tanto negativo, na parte final. Isto porque pareceu-me exagerado. No entanto, as falas e a própria interacção entre os dois está incrível.

Polémico filme pelo lobo mau ser visto como a vítima pois, em situações normais, a raiva do espectador deveria ser direccionada para o pedófilo, e não para a sua vítima, que neste caso demonstra ser calculista e fria.

Espectadores do sexo masculino ficarão devastados com esta envolvente fita, que não é aconselhável para pessoas com muita imaginação.

Aspectos Positivos: Interpretação, Imagem, Argumento

Aspectos Negativos: Final do filme.

Nota Final: 8/10

Citações:
“I was expecting someone not as impressive.”
Patrick Wilson (Jeff)
“You use the same phrases about Goldfrapp that they use on Amazon.”
“Was I born a vindictive little bitch or has society made me this way?”
Ellen Page (Hayley)

segunda-feira, abril 02, 2007

Marnie


Devo dizer que ainda são poucos os filmes deste mítico realizador a que assisti, e Marnie é (e ainda bem) um deles. Descobri-o há alguns dias, quando via televisão à tarde e estavam a passá-lo no canal Hollywood. O filme, pelo que vi, foi um fracasso de bilheteira aquando da sua saída (1964), apesar de contar com Tippi Hedren e Sean Connery no elenco e Hitchcock na realização.
Aqui encontramos a história de uma criminosa, Marnie Edgar, uma ladra compulsiva que, após alguns roubos que cometeu com sucesso, tenta fazer o mesmo a Mark Rutland (um amigo de negócios da última vítima da mulher) mas, depois de o roubar, ele consegue encontrá-la e persuade-a a casar-se com ele. É então que ele descobre que Marnie sente-se insegura perto de homens e que ela tem uma fobia pela cor vermelha…
Prós: a história, a realização, a forma como a trama se desenvolve. Tippi Hedren.
Contras: algumas cenas, como algumas a cavalo, são bastante irrealistas nos nossos dias.

Estranhos

Okay… este filme parecia-me ser excelente. Primeiro, porque o trailer fez-me lembrar uma série que eu adoro, Saw, e, segundo, porque a história parecia intrigante e relembrava-me Cube, pelo facto dos cinco homens terem perdido a memória. Mas, de facto, houve algo que não resultou…
Deixem-me esclarecer-vos em relação ao argumento: cinco homens acordam num armazém e descobrem que estão ali enclausurados sem possível saída. Todos perderam a memória, o que os leva a questionar quem são, o porquê de estarem ali e quem os fechou num armazém. – Interessante, pelo menos para mim. Eu gostei da história e do seu desenvolvimento mas, sei lá, acho que estava à espera de algo mais sangrento e doentio. Apesar de ter gostado – e muito do que vi -, penso que as minhas expectativas eram bastante grandes e, por isso, o filme não as conseguiu cumprir. Contudo, os twists que vão acontecendo exigem que fiquemos atentos a tudo o que se passa, se queremos entender todos os detalhes da trama.
Acima de tudo, vejam-no se gostarem de thrillers com uma história onde há espaço para várias surpresas.
Prós: as personagens, a história. Alguns actores conhecidos marcam presença, como Jim (ou James) Caviezel, e os twists.
Contras: o filme podia ter sido realizado de uma forma mais… entusiasmada, com mais energia e estilo.